Um brinde a Luiz Inácio

dmen150206.jpgHouvesse sido Larry Rohter, do New York Times, a revelar que o presidente Lula resistia há 45 dias sem álcool, diriam que a informação é uma invasão inaceitável de privacidade. Tendo vindo a informação da boca do próprio ministro Luiz Fernando Furlan, só podemos qualificar a inconfidência como uma exposição deliberada de privacidade.

Pela indiscrição, o ministro da Indústria e Comércio se equiparou ao jornalista americano. Agora, só nos falta André Singer, o porta-voz do Planalto, vir a público declarar que o presidente "não sabia" porque não lembrava, sofria de amnésia alcoólica.

Beber ou não beber, não é a questão. Os tragos do presidente já passaram em julgado, pelo menos é o que nos mostra esta nova pesquisa CNT/Sensus: Lula (47,6%) decola muito bem instalado no seu novo bar de bordo, Serra (37,6%) vai junto no compartimento de carga e o Alckmin parece o veleiro Brasil 1 de mastro quebrado.

Se o ministro se mostrou indiscreto e fez uma omelete com o público e privado, me considero liberado para contar um episódio muito particular, acontecido no início do ano passado.

Quando Lula bebia – "segundo Furlan e Larry Rother" -, enviei ao presidente e ao seu secretário particular, Gilberto Carvalho, alguns exemplares do meu livro Botecário – Dicionário internacional de sobrevivência no boteco, sem mestre. Com dedicatórias formais, chegaram ao Palácio do Planalto pelas mãos de uma curitibana que trabalha lá.

O livro consiste de histórias e estórias de botecos, com perguntas básicas de sobrevivência no boteco, em 30 idiomas. Inclusive o latim, porque no além há de ter um boteco em nome Dele.

Na página de rosto da edição, a caricatura do presidente com um copo d´água e o seguinte texto: "Ao companheiro Luiz Inácio Lula da Silva, ofereço este Botecário como contribuição ao chefe de Estado em seus périplos internacionais".

Alguns dias depois, sete da noite, recebemos um telefonema em nossa casa: era Gilberto Carvalho. Em nome do presidente, o secretário agradeceu o envio dos livros, contou que o presidente tinha se divertido muito com a leitura e pediu mais exemplares. Um deles foi confiscado pelo ministro Márcio Thomaz Bastos, "justamente o meu exemplar com dedicatória", disse Carvalho.

Quem atendeu o telefone e recebeu os agradecimentos foi minha mulher, Maí Nascimento Mendonça, conhecida do secretário particular desde os tempos do combativo jornal católico Voz do Paraná, nos tempos da ditadura. Maí era editora daquele semanário de resistência e secretária da Comissão de Justiça e Paz; Gilberto Carvalho era um jovem quase padre, colaborador do jornal e membro ativo das comunidades de base que atuavam na periferia de Curitiba. E eu era o chargista da Voz do Paraná, conhecia Gilberto apenas de vista, e, naquele início de noite, não estava em casa para receber os cumprimentos de Luiz Inácio porque, "por supuesto", o autor do Botecário se encontrava no boteco.

Gilberto Carvalho sempre foi uma pessoa muito gentil. Ao se despedir de Maí, insistiu que eu retornasse a ligação para sua casa, ou gabinete. Infelizmente, não retribuí a gentileza porque, no dia seguinte, o barítono Roberto Jefferson botou a boca no mundo para interpretar a tragédia do "mensalão". No olho do furacão, o telefone de Gilberto Carvalho não haveria de estar disponível para amenidades.

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Nesses tempos estranhos, quando doze charges provocam tanta ira, é preciso que se diga: Luiz Inácio Lula da Silva, apesar de tudo e dos áulicos, nunca abriu mão da tolerância. Com a inspiração de Henfil, quem sabe. Mesmo com o circo pegando fogo, não mandou os palhaços à fogueira.

Que FHC não nos ouça. Nunca, em tempo algum, um presidente brasileiro foi tão caricaturado nos mais diversos meios de comunicação, sem perder o rebolado. Com exceção de D. Pedro II, na pena de Angelo Agostini; mas aquele era imperador e devemos guardar as devidas proporções.

Portanto, e bem por isso, um brinde a Luiz Inácio Lula da Silva.

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