Mexer e revirar arquivos, reorganizar gavetas, estantes e a biblioteca pode ser cansativo, perigoso e prazeroso. Há três semanas botei abaixo minha pequena biblioteca e ela ainda resta no chão. Ai, que preguiça de reorganizar tudo. Se bem que, nessa correria de editar e lançar o Botecário nesta segunda-feira, encontro uma desculpa esfarrapada e a nossa coleção de Monteiro Lobato que espere sentada sobre uma mesa.
Para o jornalista Ricardo Noblat, segundo ele contava na edição de ontem de seu blog na internet, “é perigoso, muito perigoso mexer em arquivos. Mexi nos meus e lá encontrei uma entrevista concedida pelo então deputado federal Luiz Inácio da Silva. Foi publicada pelo Jornal do Brasil no dia 6 de dezembro de 1987. (…) A respeito do Congresso, disse Lula, revelando sua perplexidade:
? Eu nunca imaginei que o nível fosse tão baixo. Eu nunca imaginei que a incapacidade fosse tanta. Eu nunca imaginei que fosse tamanha a capacidade para negociatas e negócios sujos como o que a gente vê. Chega a dar nojo.
E mais adiante:
? É por isso que o povo não acredita em político, e tem mais é que desconfiar mesmo. Se o povo erra porque generaliza, é sábio na sua intuição sobre como a coisa funciona – embora eu diga que tem gente séria tanto à esquerda como à direita. A maioria, porém, e aí o povo está certo, é um bando, verdadeiras quadrilhas que não merecem sequer um voto e muito menos o respeito popular. (Lula não repetiria o diagnóstico hoje. O País mudou, o Congresso mudou e ele também mudou.)”
Mussa José Assis, estimado diretor deste matutino, também está reorganizando sua vasta biblioteca, mexendo em seu precioso arquivo. E está achando preciosidades. Neste caso, mexer em arquivo é uma tarefa, além de perigosa, sobretudo prazerosa.
Revira daqui, revira dali, amontoa acolá, separa e guarda, eis que de repente Mussa tem em mãos um velho bilhete guardado. Bem dactilografado (não lembro mais: é assim mesmo que se escreve essa palavra?), diz o bilhete, com minúsculas e tudo, sob o amarelo do tempo:
São Paulo, 25 de fevereiro de 1976.
Carissimo Mussa.
você esperava carta de todo mundo, menos de mim, não é mesmo? você sumiu. um me dizia que estava em jornal. outro que dirigia a televisão do pimentel. e assim por diante. até que uma moça me deu seu paradeiro definitivo. estou escrevendo para retomar contacto. lembra-se do loyola que queria escrever livros? pois continua escrevendo e começa a ir bem. o meu último, ZERO, saiu primeiro na Itália, foi vendido para Portugal, toda língua espanhola e tem uma editora americana interessada. no brasil, entram em segunda edição os contos “PEGA ELE, SILÊNCIO”, com que fui um dos vencedores do primeiro concurso do paraná, ao lado de trevisan. queria um endereço seu, seguro, para onde eu possa mandar os dois livros. claro que vou mandar material junto (críticas, depoimentos meus, entrevistas, etc) para que você me dê mão muito grande em curitiba, preciso dela. por sinal, que no dia 19 de março estarei em maringá, numa semana cultural.
me escreva, nem que seja um bilhete, dizendo ok e me dando o endereço?
vindo, telefone. grande abraço
(assinado) Ignácio de Loyola Brandão.
Mussa era secretário de redação do jornal Última Hora, em São Paulo, e guarda bem no arquivo da memória aquele jovem repórter que queria escrever livros.
Também eram bons tempos aqueles, quando se escreviam bilhetes e passar no Correio era uma rotina. Fosse hoje, o bilhete de Ginásio de Loyola Brandão teria chegado pelo correio eletrônico, um clique organizaria todos os arquivos, Mussa não teria conservado essa relíquia, e o endereço do grande escritor brasileiro não seria na Rua Ministro Godoi, 657, apto 104, Perdizes, São Paulo.
Seria ignáciodeloyolabrandao.com
Até domingo; quem sabe um bom dia para arrumar a biblioteca?