(ou, a Rua Saldanha Marinho exclusiva para pedestres. Por que não?)

(Por BRUNO DE FRANCO, arquiteto)

Neste primeiro domingo de abril, fui revisitar a Rua Saldanha Marinho. Parti do Seminário, onde hoje moro, cruzei a Mário Tourinho, caminhei pela nova região etílico-gastronômica da cidade e cheguei na Avenida Batel. Dobrei à esquerda e comprei o macarrão do domingo. Pausa na Praça Espanha. – “Aqui foi barra pesada”. Em 1965, a Turma da Praça Espanha e a Turma da Saldanha agitavam a cidade.

A Saldanha estava vazia. Só o rescaldo da madrugada perambulava por ali. Não tinha carro e não tinha gente. Somente na terceira quadra da trajetória alguém deixava uma Unidade de Interesse de Preservação: um bêbado ou drogado falando sozinho. Mais adiante, um bando de seis ou sete pivetes cheirando cola. Chegando na esquina da Ermelino de Leão, quase perdi meu macarrão para dois casais que, confortavelmente sentados em uma daquelas mesas de ferro dispostas na calçada, provavelmente ainda tomavam a última da noite. Finalizando a caminhada, já no “calçadão” da última quadra, um outro bando de pivetes se preparava para atacar a próxima vítima – no caso, eu.

Acreditem – estava em Curitiba, junto da nossa Basílica, que naquele momento anunciava treze horas, ao lado da maior concentração de pessoas aos domingos da cidade: a Feira do Setor Histórico. Um Pai Nosso e Ave Maria. Voltei correndo de táxi pra casa.

Naquela caminhada, percebi que a Saldanha Marinho ainda guarda as características de uma rua alternativa, eclética, secreta e misteriosa. Afinal, é lá que ainda estão alguns antigos açougues, foi lá que a Batavo teve seu primeiro ponto de venda, o melhor pastel da cidade surgiu por ali. Até a Pastelaria Oriental hoje mantém uma loja perto do Kapelle. Onde estará o senhor Paco, do Prosdócimo? A vitrine da Charutaria Liberty? E os pequenos jornaleiros? E os ricos colunáveis que na década de 60 moravam no Edifício Colombo? Que fim levou o cinema? O Boticário nasceu entre a Muricy e a Ébano, ao lado do antigo Ginásio, hoje a nossa Secretaria da Cultura. Presenciei o prefeito Iberê de Matos inaugurar, junto à Praça Santos Dumont, um poste com uma moderna lâmpada de vapor de mercúrio, com direito a banda de música e tudo. Onde hoje está a Sinagoga era o nosso campinho de futebol. A melhor sapataria da cidade também está lá, com a igreja de São Francisco.

Hoje, provavelmente pelo aluguel barato, em função da deterioração central, um interessante mix comercial vem se instalando no local: ervas, livros e discos, sebos e brechós, vestidos de noiva, chapéus, gastronomia, oficinas mecânicas, informática, pensões para “moças e rapazes”, galerias de arte, bares e boemia, clubes GLS e muito mais. Uma adorável mistura. Este é um dos segredos para o correto planejamento urbano. O pobre e o rico, o açougue, a peixaria e uma obra de arte precisam conviver e interagir juntos.

Vamos salvar a Saldanha Marinho. Ela precisa de um “Banho de Rua”. Hoje não apresenta vocação nem para o pedestre, nem para o automóvel. Vamos, na Saldanha, criar restrições para veículos. A Saldanha será exclusiva para pedestres – da Basílica à Praça Espanha. Será a rua alternativa da cidade. Uma ligação entre o Setor Histórico e a Feira de Antigüidades do Batel, criando e consolidando um eixo natural de vocação comercial, residencial, religiosa, boêmia e cultural.

Enfim, também com este eixo já estaremos implantando a barreira de controle norte-sul para a futura e inevitável restrição ao acesso de automóveis em toda a área central de Curitiba.

Vamos dar um “Banho de Rua”: calçadas niveladas; paisagismo adequado; segurança; iluminação; infra-estrutura tecnológica; sistema de informações; legislação atualizada, compatível e adequada. Incentivo habitacional. Como? Isenção total de IPTU para quem na Saldanha morar.

Até quarta-feira; e aliste-se você também no ELS (Exército de Libertação da Saldanha)

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