dantem300806.jpgDepois de 140 intermináveis minutos de debates entre os candidatos a governador, restaram no ar três importantes perguntas: quem faltou menos com a verdade; quem saiu vencedor; e será que não tinha coisa melhor a fazer naquela fria noite de segunda-feira?

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Para responder às duas primeiras perguntas, antes é preciso responder à última: muito mais proveitoso que ouvir os oito candidatos presentes ao debate na televisão – Roberto Requião (PMDB), Rubens Bueno (PPS), Osmar Dias (PDT), Flávio Arns (PT), Mello Viana (PV), Adão Marques (PSDC), Luiz Felipe Bergmann (PSOL) e Antônio Forte (PSL) – seria ler as memórias da guerra civil espanhola do escritor George Orwell: Lutando na Espanha -Homenagem à Catalunha, Recordando a guerra civil espanhola e outros escritos (393 páginas, Editora Globo).

Eric Arthur Blair era o nome dele. Com o pseudônimo de George Orwell (1903-1950) o inglês nascido na Índia teve sua vida e obra agregadas à história da guerra civil espanhola (1936-1939). Uma bala lhe atravessou a garganta e o escritor retirou, da amarga experiência, o auto-esclarecimento acerca da extensão e da expansão do totalitarismo (com reflexões premonitórias dos rumos que o mundo tomou após a Segunda Guerra Mundial). Também analisou os problemas relativos à complexidade da verdade histórica, ?sistematicamente fabricada e manipulada, em particular pela grande imprensa?. Veio dos tiroteios, em Barcelona, a munição que o conduziu a escrever suas obras ficcionais posteriores, notadamente o livro 1984.

Uma campanha eleitoral é, principalmente, uma guerra de informação de massa. E a primeira vítima é sempre a verdade. ?Sem nunca ser capaz de fugir dos cheiros repugnantes de origem humana?, Orwell sentia de longe o que hoje ainda cheira mal: ?No que diz respeito às massas, as extraordinárias mudanças de opinião que acontecem hoje em dia, as emoções que podem ser ligadas e desligadas como uma lâmpada, são os resultados da hipnose dos jornais e do rádio?.

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George Orwell se referia à luta pelo poder como uma coisa triste, para acrescentar uma advertência que chega aos tempos da hipnose pela televisão: ?Não acredite em nada, ou quase nada, do que você lê sobre os acontecimentos que dizem respeito aos bastidores do governo. É tudo, qualquer que seja a fonte, propaganda partidária – quer dizer, mentira?.

Na guerra civil espanhola, o escritor viu a história ser escrita não em termos do que aconteceu, mas do que deveria ter acontecido, segundo as diversas linhas partidárias: ?Esse tipo de coisa é aterrorizante para mim, porque sempre me dá a sensação de que o próprio conceito de verdade objetiva está desaparecendo do mundo. Afinal, há possibilidades de que essas mentiras passem para a história. Como a história da guerra civil espanhola será escrita? Se Franco continuar no poder, pessoas nomeadas por ele escreverão os livros de história. Mas suponha que o fascismo seja mesmo derrotado e algum tipo de governo democrático se restabeleça na Espanha, como é que a história da guerra será contada??.

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Na guerra, as atrocidades sempre vencem e, vencedor ou derrotado, assim é se lhe parece: ?Tenho poucas provas diretas de atrocidades na guerra civil espanhola. Sei que algumas foram cometidas por republicanos, e muito mais pelos fascistas. Mas o que me impressionou então, e tem me impressionado desde então, é que se crê ou se descrê das atrocidades somente com base na preferência política. Todo mundo crê nas atrocidades do inimigo e descrê das atrocidades daqueles que estão ao seu lado. E, o mais estranho ainda, a qualquer momento a situação pode se reverter e a história da atrocidade provada e comprovada de ontem pode se tornar uma mentira ridícula, simplesmente porque a paixão política mudou?.

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Do debate entre candidatos, cada facção política teve o seu vencedor, suas próprias verdades. E nós outros, com certeza, tivemos coisas bem melhores a fazer naquela fria noite de segunda-feira.