
?Este filme contém cenas fortes sobre tráfico humano.? A frase abre o filme Tráfico humano, que tem no elenco Mira Sorvino, Donald Sutherland e Robert Carlyle. Na primeira cena, uma bela garota russa é encaminhada para o abate num apartamento em Nova York. Cliente e agenciador trocam um punhado de dólares.
A porta do abatedouro se fecha e então a bela fica nas garras da fera que baixa a braguilha. O momento seguinte é um corpo que cai sobre a capota de um automóvel, quase ao lado do agenciador que tinha entregado a mercadoria. Era o corpo da garota russa que preferiu olhar a morte de frente a encarar o que se abria da braguilha da fera.
?Fama e grana, os bastidores das passarelas?, assim podia ser o título do filme Tráfico humano, para atrair adolescentes incautas que sonham com a vida fácil na difícil vida de modelo internacional. Os agentes federais Mira Sorvino e Donald Sutherland conduzem uma cadeia de histórias trágicas e violentas que servem também como audiovisual educativo para os jovens, e lição de casa para a hipocrisia da sociedade moderna.
?Hoje, de 800 a 900 mil pessoas são traficadas no mundo. Depois de armas e drogas, o negócio mais lucrativo é o tráfico humano?, informa o DVD que já está nas locadoras. Na conclusão do enredo, que conta do tráfico de uma jovem de 16 anos da Ucrânia, uma mãe solteira da Rússia, uma órfã de 17 da Romênia e uma turista adolescente americana de 12, a personagem de Mira Sorvino deixa um discurso que revela em preto e branco o sonho colorido das passarelas: ?Ninguém sensato acredita que a escravidão exista no século XXI. Estamos enganados. Traficantes de escravos descobriram como é lucrativo comprar e vender pessoas. Devemos enfrentar o fato de que esse horror não seria possível se nossa cultura não criasse uma demanda para isso. Precisamos entender que a escravidão moderna só acontece porque escolhemos ignorá-la?.
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Aqui entre nós, de fato, ?esse horror não seria possível se nossa cultura não criasse demanda para isso?. Em Curitiba, se formos traçar um círculo tendo como vértice o tradicional Colégio Sion, num raio de dois mil metros, a atriz Mira Sorvino no papel da agente federal Kate Morozov em Tráfico humano teria serviço para outro thriller de tirar o fôlego de certos traficantes de influências locais.
Quem freqüenta o círculo endinheirado conhece cafetinas que passam listas entre seletos clientes dispostos a pagar um punhado de dólares para desfrutar de algumas horas na companhia de famosas páginas duplas de revistas masculinas.
Uma das ?modelos e atrizes? causou furor. A fila foi tão grande que ia do Clube Curitibano ao Country Clube.
No dia seguinte – a história é velha e verídica – a madame apreciava a capa da revista de celebridades, quando o marido comentou, todo pimpão:
– Dormi com ela ontem!
A madame levantou os olhos, deu um suspiro resignado e retrucou baixinho:
– Imagina! Esse meu velho… cada dia mais gagá!