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Se somarmos todos os carnavalescos da história, vai faltar bamba para preencher o vazio que o autor da frase deixou no nosso Carnaval. Para a maioria, Chocolate (foto) era apenas o mais folclórico dos nossos carnavalescos. Para a minoria, era o mais autêntico dos sambistas que já se dedicaram à luta inglória de realizar Carnaval em Curitiba: tinha o samba no sapato branco, vivia o ano inteiro em função da folia e, quando lhe faltava no bolso, largava do pandeiro e botava a boca no trombone.
Em fevereiro de 1979 – com a jornalista Telma Serur e o fotógrafo Pablito Pereira -, entrevistamos Chocolate no barraco do Capão da Imbuia, entre utensílios diversos de macumba, violão, pandeiros e tamborins. Na parede, o cartaz do show do compositor Lápis e o pôster da atriz Leila Diniz, vestida de baiana, dando de mamar à filha Janaína.
Poeta do povo e autor de harmonias felizes, Mansueden dos Santos Prudente tinha, na época da entrevista, 48 anos: ?Eu vim do Rio em 1949, mas nasci em Antonina. Sou bacucu de nascença e carioca de coração. Quando menino, fui sacristão na Igreja Santa Terezinha. Eu era um bom cantor. Naquela época, quase ninguém cantava o samba de breque. Este estilo casou bem com minha voz e parti para o programa de rádio. Fui calouro e passei a profissional, quando fui obrigado a tocar uma imagem criada para mim, ou seja, a do malandro.
De volta do Rio, apenas para buscar aqui alguns documentos, conheci a Ilda, minha nega, que, na época, estava inteirinha. Temos um único filho, pois o primeiro morreu?.
Saindo às ruas para brincar no Carnaval ?desde que me entendo por gente?, no final dos anos 70s Chocolate já era uma espécie em franca extinção, o carnavalesco 365 dias por ano. Mesmo os amigos mais chegados não compreendiam o que movia aquele crioulo simpático, poucos dentes, de sorriso amigo, muito ritmo e compositor dos mais inspirados. Fundador de uma escola de samba ?feita em casa?, a Ideais do Ritmo, jamais conseguiu boas notas dos jurados: ?Para a comissão julgadora, só buscam sambista do Country Club?, dizia. ?Agora, é só madame fulana de tal, que nunca viu nem Carnaval de rua.
Só porque é madame, que papelão.?
Ideais do Ritmo era ponto de encontro no Capão da Imbuia. Uma escola de samba que de escola só tinha o nome.
Na verdade era um bloco onde desfilava a família Chocolate, sua esposa, filhos e até sua mãe. Suas fantasias, alegorias e adereços eram improvisados.
A bateria, porém, se não era a maior, era a melhor. Com pouquíssimos instrumentos – até afinada demais para os padrões do Brasil Meridional -, vinha com o entusiasmo do samba-enredo de autoria do próprio Chocolate.
Outra característica de Mansueden é que o irreverente não se enquadrava nos regulamentos do desfile. Cheio de manhas, era o boêmio que fazia a escola sempre chegar atrasada. Enfezado, se o ?doutor? faltasse com o prometido, deixava de desfilar. No particular, o bom malandro não era de fazer muitas reclamações e ameaças, mas,
à frente de seus próximos, exigia tudo que o Capão da Imbuia tinha de direito. Chocolate sempre abria os desfiles.
Depois de atravessar a avenida, misturava alegria com cachaça. Sentado na calçada, chorava lágrimas com purpurina.
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?O próprio negro de Curitiba é frio, tem vergonha de participar. Então ele fica sem colocação, tem medo que o povo diga assim: ?Ah! Este macaco aí já está se exibindo!? Assim, ninguém reconhece o nosso gabarito. Para assistir o Carnaval ele assiste, mas vai com medo, entende? Por causa do preconceito que Carnaval é coisa de preto e de branco sem-vergonha, como a cachaça, é que os brancos distintos não se metem? – Chocolate (Mansueden dos Santos Prudente, 1933-1984).