?O próprio negro de Curitiba é frio, tem vergonha de participar. Então ele fica sem colocação, tem medo que o povo diga assim: ?Ah! Este macaco aí já está se exibindo!´. Assim, ninguém reconhece o nosso gabarito. Para assistir o Carnaval ele assiste, mas vai com medo, entende? Por causa do preconceito de que Carnaval é coisa de preto e de branco sem-vergonha, como a cachaça, é que os brancos distintos não se metem? – Chocolate (Mansueden dos Santos Prudente, 1933-1984).
Aquele influente assessor poderia ter sido Ernani Buchmann. Nascido em Joinville, bem sabe do que é feita uma salsicha. Buchmann também sabe que botar um bloco tem o seu preço, e para muitos esse preço é a própria vida. No entanto, a maioria daqueles que abominam as escolas de samba de Curitiba não levam em conta é que, para os integrantes de uma agremiação, o Carnaval tem 365 dias e outras tantas noites de sonhos e pesadelos.
Chocolate vivia do Carnaval, não tinha vergonha de confessar a dificuldade de arrecadar verbas e arrebanhar pastorinhas para o seu rebanho: ?A falta de grana está me deixando nervoso, inclusive estou passando mal à beça, tomei até uma tiaminose para me recuperar. Você vê: o sentido de fazer Carnaval artístico em Curitiba é dificultoso, porque o povo não se motiva, entende? Aqui no meu barraco é gente humilde. Minha verba é limitada, na linha da pequena. Eu sempre me pergunto por que o pessoal do bairro não vem aqui, se é por a gente ser humilde. Mas eu acredito que não, o povo é burro mesmo. Na vizinhança, existem oito igrejas de crente, uma católica, e acho que mais de 50% da população freqüenta esses cultos. Os únicos corais que existem são das igrejas, e ali é um fanatismo louco. É muita igreja para pouco bairro. O pior é que já sou visado, pois sou macumbeiro mesmo, eles têm medo de chegar?.
Nos carnavais seguintes, a escola de samba Ideais do Ritmo passou a se chamar Grêmio Recreativo Cultural Capão da Imbuia. O nome ficou mais pomposo, mas Chocolate continuou interpretando aquele velho personagem ?malandro? do início da carreira, como contou num livro o também carnavalesco Julinho da Sapolândia.
Sempre com um ?livro de ouro? embaixo do braço, Chocolate saía por aí para ganhar a vida. Ao visitar a indústria de um velho amigo, Chocolate foi logo apelando:
– Morreu o Betinho, passista dos bons. Preciso de uma ajuda para o enterro.
O amigo lhe deu um ajutório em dinheiro, mas completou com uma galhofa:
– Chocolate, este ano sua escola não vai sair no Carnaval. Não é?
– Vai. Por que não sairia? – respondeu Mansueden.
– Mas este é o 18.º sambista que você enterra. E estamos em agosto.