Se somarmos todos os carnavalescos da história de Curitiba, vai faltar bamba para preencher o vazio que o autor da frase deixou no nosso carnaval. Para a maioria, Chocolate era apenas o mais folclórico dos nossos carnavalescos. Para uma minoria, era o mais autêntico dos sambistas que já se dedicaram à luta inglória de realizar carnaval em Curitiba: tinha o samba no sapato branco, vivia o ano inteiro em função DA folia e, quando lhe faltava no bolso, largava do pandeiro e botava a boca no trombone.
Em fevereiro de 1979 – com a jornalista Telma Serur e o fotógrafo Pablito Pereira -, entrevistamos Chocolate no barraco do Capão da Imbuia, entre utensílios diversos de macumba, violão, pandeiros e tamborins. Na parede, o cartaz de um show do compositor Lápis e o pôster da atriz Leila Diniz, vestida de baiana, dando de mamar à filha Janaína.
Saindo às ruas para brincar no Carnaval ?desde que me entendo por gente?, no final dos anos 70s Chocolate já era uma espécie em franca extinção, o carnavalesco 365 dias por ano. Mesmo os amigos mais chegados não compreendiam o que movia aquele crioulo simpático, poucos dentes, de sorriso amigo, muito ritmo e compositor dos mais inspirados. Fundador de uma escola de samba ?feita em casa?, a Ideais do Ritmo, jamais conseguiu boas notas dos jurados: ?Para a comissão julgadora, só buscam sambista do Country Club? – dizia ele. ?Agora, é só madame fulana de tal, que nunca viu nem Carnaval de rua. Só porque é madame, que papelão.?
Ideiais do Ritmo era ponto de encontro do bairro Capão da Imbuia. Uma escola de samba que de escola só tinha o nome. Na verdade era um bloco onde desfilava a família Chocolate, sua esposa, filhos e até sua mãe. Suas fantasias, alegorias e adereços eram improvisados. A bateria, porém, se não era a maior, era a melhor. Com pouquíssimos instrumentos – até afinada demais para os padrões do Brasil Meridional -, vinha com o entusiasmo do samba-enredo de autoria do próprio Chocolate.
Outra característica de Mansueden é que o irreverente não se enquadrava nos regulamentos do desfile, um tormento para o juiz de largada. Cheio de manhas, era o boêmio que fazia a escola sempre chegar atrasada. Enfezado, se o ?doutor? faltasse com o prometido, deixava de desfilar. No particular, o bom malandro não era de fazer muitas reclamações e ameaças, mas, à frente de seus próximos, exigia tudo que o Capão da Imbuia tinha de direito. Alma de passarinho, ameaçava derrubar o prefeito. General de um exército que chegava ao campo de batalha já derrotado, Chocolate sempre abria os desfiles. Depois de atravessar a avenida, misturava alegria com cachaça. Sentado na calçada, chorava lágrimas com purpurina.
(Neste domingo de Carnaval, outras histórias do sambista)