Grande Dante: veja só. Ontem à noite (quarta-feira), no Guairão, o show Tango com Mariana encantou a platéia. Em um determinado momento a cantora terminou Cambalache, esta obra-prima premonitória sobre o tempo em que vivemos, e partiu para Garufa, outra maravilha de Enrique Discepolo. Foi aí que uma voz, por trás de Clarita e Henrique Naigeboren, sussurrou no ouvido do casal:

– Señora e señor, mui buena noche. Gracias por venir a el show. Mi nombre es Sérgio Mercer e estoy a la derecha del bandoneón.

Os dois levaram um susto, antes de me reconhecerem. É que o clima estava tão fantástico que não seria demais imaginar o velho Mercer ali ao lado do homem do bandoneón. Até mesmo porque ele, juntamente com Solda e o hoje procurador de justiça Chico Branco, foi o autor de uma deliciosa letra-paródia (em portunhol de Curitiba) do clássico Garufa, rebatizada como Siritango. Lembra?

Fue en la Farmácia Minerva / No me atendieron / Pedi um Sal de Andrews o Sonrisal / Tomé un Calcigenol / Irradiado / Por la Rádio Belgrano / Fenomenal / Tomé un Emulsión de Scott / Sin bacallao / E un pastel de carne / Del Oriental / Comi un cachorro-quiente / Más mucho quiente / Quemé toda mi boca / Quedé piantao / Sinuca / Porqué me puse a jugar / Peruca / Pelado voy a quedar / De porradas / Sé que me quieres cobrir / Só porque la otra noche / Yo fuí / A la donde? / En el Bar Rei do Siri.

A propósito, dia 12 de junho passado Sérgio Mercer teria completado 60 anos. Ele se foi, mas aqui nos quedamos. Piantao, piantao, como dizia Astor Piazzolla em Balada para un Loco.

E, finalmente, señoras e señores, muy buena noche era a frase com que abria os engraçadíssimos shows com que brindava os amigos, ao assumir o tangueiro que surgia nele depois de alguns whiskies.

Abraços. Ernani Buchmann.

ERNANI, saudades do Sérgio Mercer e daqueles belos bailes por nós organizados no século passado. Memoráveis festas que renderam histórias e momentos inolvidables, além do único registro da obra musical do “bandoneonista” de Tibagi. Na coleção de uns poucos privilegiados, a fita-cassete foi caprichosamente produzida para abrilhantar o Baile do Mercer, na data do seu primeiro cinqüentenário, realizado com foguetório, pompa e circunstância no Clube Concórdia, há dez anos atrás, por supuesto.

As Músicas de Sérgio Mercer e seu Bandonéon Imaginário é um registro raro, pois ganhou uma pequena tiragem de 500 exemplares. Anos depois, o irmão Carlos Alberto Mercer produziu outras 100 cópias, agora em CD. Reunindo nossos bambas, a gravação original tem na ficha técnica Marinho Gallera e Fernando Montanari (produção musical e arranjos), vozes de Margarida Mercer, Ângela Mercer de Mello, Paulo Chaves e Marinho. Assinam parcerias Margarida Mercer, Chico Branco, Ernani Buchmann, Carlito Mercer e Solda. Para conferência dos colecionadores, observa-se nos créditos da capa original que Siritango, a paródia de Garufa, recebe outro nome: Barigüitango. O cambalacho tem origem num entrevero etílico com o extinto Bar Rei do Siri. De vingança, os autores retiraram o nome do boteco do título e do último verso da paródia, substituindo por En nel Parque Barigüi.

Portanto, gracias Ernani, por recuperar a letra do Siritango e a memória de Sérgio Mercer, há 60 anos pairando sobre os campos de Tibagi.

Até domingo, Margarida Mercer.

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