Dizem que o teste de consolidação de qualquer obra – seja ela um jornal, uma revista ou um evento que se pretenda de longa vida – é ultrapassar a marca de três edições, três números ou três anos. Se não me engano, essa teoria é de Millôr Fernandes, e nasceu quando da fundação do Pasquim. Ou teria sido do Ziraldo? Não importa, porque isto podemos constatar: quantas belas idéias já vimos naufragadas antes da terceira edição? E quantos empreenderam tarefa que se imaginava longeva e, de repente, não mais do que de repente, naufragaram na primeira marola de mar bravio? Dizia a música e o poeta: ?são demais os perigos dessa vida?, mas ?navegar é preciso?.

continua após a publicidade

Dos que navegam, apesar de tudo, precisamos saudar a epopéia dos meninos de Curitiba que criaram o Festival de Teatro, agora mesmo encerrado. É um sucesso, a carreira desses meninos que já não são tão meninos. Cresceram com o Festival que varou a barreira da terceira edição e foram longe, bem longe, chegando aos 14 anos de idade amadurecidos, consolidados, emancipados, mas sem perder o bom humor.

Este bom humor do Festival de Teatro de Curitiba mostra sua cara nas campanhas publicitárias que assina. Uma melhor que a outra, a deste ano foi uma bela peça de criação: ?Curitiba tem cada peça?. Com várias peças, mostrando nossas peças, meninos eu vi, o Rio de Janeiro se rendeu às peças mostradas em cartazes, nos pontos de ônibus. Tal e qual aqui, era só do que se falava.

Se o Festival de Teatro apresentou ao distinto público o número absurdo de 219 peças em apenas duas semanas, as peças de Curitiba são muito mais, além do Oil Man, Toninho da Renovar e o Inri Cristo, estes contemporâneos já quase lendas.

continua após a publicidade

Curitiba tem cada peça, mas uma das maiores peças da cidade é uma lenda que só o palco pode reviver. É a lenda do Kaliempa, que era um raio de rápido. Kaliempa foi lenda do futebol suburbano de Curitiba. Um goleiro que nasceu no Bigorrilho, o bairro mais próximo ao centro de Curitiba onde a colônia polonesa deixou seus fortes traços no casario colonial bordado com lambrequins. Ainda hoje velhas casas de madeira resistem à especulação imobiliária, que aliada à classe média forasteira e emergente rebatizou o bairro com nome supostamente chique de Champagnat.

Nove entre dez moradores eram polacos, um era ucraniano, mas todos aqueles vizinhos de cerca de ripa eram torcedores do União Bigorrilho, esquadra suburbana da segunda divisão, presidida pelo popular Tchenco. O velho Tchenco, dono do time, dono da bola e dono do terreno onde se situava o campo, junto a um barranco que se fazia de arquibancada.

continua após a publicidade

Foi do alto daquele barranco que Kaliempa decolou para a história. Goleiro titular do segundo quadro do União Bigorrilho, só o velho Tchenco não enxergava o talento daquele polaco de cabelo vermelho, esguio e um raio de rápido.

Numa melhor de três valendo churrasco e cervejada contra o Botafogo das Mercês, legendário time campeão da segunda divisão do centenário de Curitiba, o titular goleiro Vanha tinha engolido dois frangos na primeira partida, no campo do Botafogo.

No jogo em casa, a torcida do Bigorrilho postou-se inconformada nos barrancos e, assim que o time do velho Tchenco entrou em campo, o protesto disparou do barranco e atingiu os ouvidos do dono do time, da bola e do campo:

– Bota Kaliempa na arco! Bota Kaliempa na arco!

Kaliempa entrou. Entrou e fechou o arco. Um a zero para o União Bigorrilho graças a Kaliempa, que era um raio de rápido. O time do Botafogo comandava o jogo, dominava o meio-de- campo e não tirava a chuteira do campo de defesa do Bigorrilho. Kaliempa segurava todos os pelotaços, que ele era um raio de rápido.

E do alto do barranco a torcida delirava:

– Com Kaliempa na arco nie rato escapa!

Kaliempa tornou-se ídolo no Bigorrilho, virou lenda e a frase ainda hoje é repetida nos botecos do bairro:

– Com Kaliempa na arco nie rato escapa!

Até sexta-feira; e se você não acredita no lendário Kaliempa, quem conta é o fotógrafo Orlando ?polaco? Kissner, que contou para o Jaime Lerner, que fez essa lenda correr o mundo, literalmente.