Sorria, cidade

Ou estamos muito enganados, nós todos e as pesquisas, ou a pauta principal da próxima eleição municipal será a questão da segurança pública, principalmente em Curitiba. E, nesse aspecto, somos de fato uma cidade de primeiro mundo. Não só após o massacre de Madri, mas desde quando Curitiba se inscreveu no clube das regiões metropolitanas acima de dois milhões e meio de habitantes. Vamos discutir segurança pública nesta e nas seguintes eleições municipais. É um caminho sem volta.

A Curitiba dos anos 70 era a “Cidade Sorriso”. Muitos ainda lembram e continuam não entendendo a origem da expressão, pois sempre a capital foi estigmatizada como taciturna. Não afeita a gratuitas demonstrações públicas de júbilo. A jornalista Antônia Eliana Chagas (curitibana de coração, hoje uma nova-iorquina que por esses dias nos visita) tem uma explicação para a cara amarrada. Segundo Tonica, o curitibano costuma andar pelas ruas ensimesmado e sem nenhum sorriso, por culpa de nossas calçadas. De tão mal construídas, esburacadas e onduladas, as calçadas fazem do curitibano um pedestre preocupado com a sorte das próprias canelas. Tonica prega o fim do paralelepípedo e a instituição de calçadas sem truques, apenas lisas e porosas. Seguras, nada mais, nada menos.

Se muitos não entendem por que “Cidade Sorriso”, só fui entender o título quando soube da história do Fernandinho Bumbo, que era uma vez tinha um bar no Bacacheri chamado “Bar sem nome”. Ou, “Bar sem portas”, para os íntimos, porque não tinha portas. Portanto, não fechava nunca. Certa tarde, Fernandinho Bumbo se encontrava sozinho no boteco quando foi assaltado por dois elementos, um deles armado.

– Simpatia, passa a grana!

Em vez de reagir, Fernandinho abriu um sorriso e, com aquele seu jeitão de malandro, convidou os recém-chegados para um drinque:

– Camaradagem, sou da paz. Só faço questão de oferecer um trago, antes de qualquer coisa. Até porque o caixa está vazio e vamos ter que negociar.

Os meliantes se entreolharam e, dada a inesperada receptividade, aceitaram o armistício etílico. Na segunda rodada de trago e conversa, Fernandinho fez uma proposta ainda mais surpreendente:

– Camaradagem, preciso passar no fornecedor pra pegar gelo e carvão. Será que a camaradagem faria a gentileza de tomar conta do balcão por uns breves momentos?

Fernandinho Bumbo passou o comando do estabelecimento para os rapazes e foi buscar a encomenda. Quando retornou, encontrou os assaltantes em pleno exercício de suas novas atribuições, já servindo a freguesia, como se fossem dois novos e empenhados funcionários.

Depois de uma noite de trabalho e tragos no “Bar sem portas”, os dois elementos, “recuperados à sociedade” por Fernandinho Bumbo, foram presos por vadiagem no Atuba, um bairro próximo.

Essa era a “Cidade Sorriso” dos anos 70, quando a violência entrava na pauta de nossas discussões através do Jornal Nacional, como privilégio do eixo Rio-São Paulo.

Um milhão e meio de habitantes depois, Curitiba não é mais “Cidade Sorriso”. É “Sorria, Cidade”.

No escritório, está lá o aviso: “Sorria, você está sendo filmado”. No consultório, o aviso se repete: “Sorria, você está sendo filmado”. No mercado, a mesma advertência: “Sorria, você está sendo filmado”. E na saída do caixa-automático, um convite parecido: “Sorria, você está sendo assaltado”.

Se Fernandinho Bumbo ainda estivesse com as portas abertas do seu “Bar sem nome”, hoje também se juntaria ao coro de uma cidade justamente ensimesmada: “Sorria, você está sendo filmado”.

Curitiba, antes “Cidade Sorriso”. Hoje, é “Sorria, Cidade”.

Até sexta-feira; registrando em ata que Fernandinho Bumbo é o autor da famosa frase que caracteriza a rua da boemia curitibana: “Todo mundo carrega a sua cruz. A minha é a Cruz Machado”.

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