O Paraná é o campeão brasileiro na compra de votos. Pesquisa revela que 8% dos eleitores brasileiros receberam algum tipo de ?cantada? para vender o voto. No Paraná foi um colosso: 22% dos eleitores foram abordados com propostas indecentes.
Toma lá, dá cá: 8% dos eleitores brasileiros receberam algum tipo de oferta para vender seu voto em 2006. Transformado para o universo de eleitores, o percentual significa 8,3 milhões de pessoas, a soma de eleitores de Amapá, Amazonas, Acre, Distrito Federal, Mato Grosso do Sul, Rondônia, Roraima, Sergipe e Tocantins. Avante brasileiros, para trás: na pesquisa anterior, em 2002, foram apenas 3%. É a democracia transformada numa grande negociata. É o velho cambalacho da América Latina, com escrutínio eletrônico.
Uma vergonha, fomos rebaixados: agora somos habitantes do Sul Maravilha que se destaca no mapa da corrupção eleitoral. No Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e no Paraná, 12% do eleitorado foi abordado com alguma proposição indecorosa, de alguma forma com aspecto do vil metal. Ou estamos vivendo numa região com muito dinheiro sobrando, ou os endinheirados estão convencidos de que somos uma gente disposta a fazer qualquer coisa por dinheiro.
E assim ficamos na dúvida: será mesmo que apenas uma reforma política resolveria essa humilhante barganha, ou todo pecado é permitido porque a promiscuidade política está impregnada no nosso caráter e o ?michê? eleitoral já faz parte da nossa cultura?
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Não há dúvida. Mesmo com 22% da população confessando que de alguma forma foi alvo de propostas indecentes, ainda assim os eleitos não devem renunciar, por mais suspeitos que sejam. Muito menos vão sair às ruas com algum constrangimento, uma leve expressão de vergonha na cara.
Assim, se Suas Excelências os cafetões da República não vão renunciar ao que conquistaram batendo bolsinha nas esquinas das zonas eleitorais – aqui a palavra zona adquire significado de baixo calão -, nós eleitores é que deveríamos renunciar ao direito de voto, rasgar o título de eleitor num desatino.
Se 22% dos paranaenses têm o seu preço – e a pesquisa encomendada pela organização não-governamental Transparência Brasil, realizada pelo Ibope, não traz a lista dos assediados, ou o endereço das casas de tolerância – fica a suspeita de que todos nós estamos com a marca de batom na cueca.
Ninguém está acima do bem e do mal, somos todos suspeitos.
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Sinto muito, deputado Gustavo Fruet: Sua Excelência é suspeito de assediar o eminente jurista René Ariel Dotti. Foi-lhe dado um preço, dr. René Dotti?
Sinto muito, deputado Nelson Justus: o senhor presidente da Assembléia Legislativa do Paraná é suspeito de levar uma proposta indecorosa ao cidadão Dalton Trevisan. O preço do escritor seria o mesmo daquelas personagens que circulam na Praça Osório?
Sinto muito, senador Alvaro Dias: Sua Excelência é suspeito de levar para o mau caminho o premiado arquiteto Manoel Coelho. Foi-lhe oferecido um preço justo, caro Manoel Coelho?
Sinto muito, governador Roberto Requião: Sua Excelência é suspeito de abordar com más intenções o arcebispo metropolitano de Curitiba, dom Moacir Vitti. Por acaso lhe ofereceram 30 dinheiros, dom Moacir?
Deputados estaduais, deputados federais, senadores, todos os eleitos: os senhores são suspeitos de oferecer a 22% dos paranaenses algum tipo de oferta indecente para vender seu voto em 2006. O que Suas Excelências têm a dizer em suas respectivas defesas?
Senhores eleitores que compareceram às urnas em 2006: todos nós somos suspeitos de aceitar algum tipo de favorecimento em troca do voto. O que temos a argumentar em nossa defesa, além de dizer, como de costume, que política é assim mesmo e que todos os políticos são corruptos?