É lá e cá. Está valendo a lei de reciprocidade entre argentinos e brasileiros. Assim: os brasileiros já podem aprontar a maior esbórnia em Puerto Madero, Buenos Aires, como se estivessem atrás de um trio elétrico na Bahia. Por outro lado, los hermanos são hermanos de papel passado, com direitos adquiridos de invadir as nossas praias, para desgosto dos catarinas que agora devem engolir com farinha a pose dos porteños.

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Nem mais, nem menos, somos todos iguais perante as rivalidades. A lei vale desde a semana passada, quando foi publicada no Diário Oficial. Com isso, o Brasil colocou em vigor aos argentinos o acordo sobre residência firmado em dezembro de 2002 entre os países membros do Mercosul. O Uruguai é o próximo país que entra na família. Para os 60 mil argentinos em situação irregular no Brasil, e mais o dobro deles que pretendem montar barraquinha para vender churros em Balneário Camboriú, a medida quer dizer o seguinte: argentinos que moram ou querem morar no Brasil já podem residir legalmente no País mesmo sem ter cônjuge, filho ou contrato de trabalho aqui – e ainda que tenham vivido por algum tempo como ilegais. Em contrapartida, los hermanos vão ter que aturar sambistas nas casas de tango de Palermo Viejo. E não vem que não tem: Deus pode ser brasileiro, mas tem escritório em Buenos Aires.

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A história de rivalidades entre argentinos e brasileiros poderia ter começado em 27 de setembro de 1914, com a primeira partida oficial de futebol entre os dois países, pela Copa Roca. Houve até banquete para marcar este primeiro confronto onde, também neste dia, ?la mano de dios? esteve presente. A peleia aconteceu no Gymnasia y Esgrima de La Plata. Com um chute de 30 metros, Rubens Salles fez 1 a 0 para o Brasil. No segundo tempo, o argentino Leonardi dominou a bola com a mão e marcou o que seria o gol de empate. O juiz validou o lance, mas ninguém comemorou. O capitão argentino, à frente de outros jogadores, comunicou ao juiz que o lance fora irregular e que seu time não aceitava o gol. Inacreditável, o Brasil venceu a partida e todos saíram de campo abraçados, num clima de impecável cordialidade.

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Assim que foi regulamentado acordo sobre residência, no dia seguinte um brasileiro foi a Buenos Aires arrumar emprego. Com tremenda dor de cabeça, entrou numa farmácia da Calle Florida: Olá, o caro hermano tem uma aspirina? O argentino foi ao fundo da farmácia e mostrou uma aspirina do tamanho de um pneu. Você não tem de tamanho normal? No, no… en Argentina tenemos la aspirina más grande del mundo! Bem, então me dá uma garrafa de álcool. O argentino foi ao fundo da farmácia, pegou garrafão de dez litros e perguntou: Algo más? Não, não, obrigado! Estava só pensando em comprar um supositório… mas vou deixar para comprar no Brasil mesmo!

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É lá e cá. No mesmo dia um argentino largou a família em Corrientes e veio trabalhar em São Paulo. Completamente desnorteado, desceu do ônibus e foi pedir informações para um camelô com a camisa do Corinthians.

– Oye! Dónde hay un autobus pra ir hasta la estación de trenes para Itaquera?

– Aqui não chamamos de autobus, chamamos de ônibus!

– OK. Entonces, como apanho el autobus, hasta la estación?

– Aqui não chamamos estación, chamamos ferroviária!

– Muy bien! Entonces, donde hay um autobus para ir a la ferroviária de los trenes?

– Aqui não chamamos trenes, chamamos trem!

– Caramba! Entonces, mi hermano, como apanho um ônibus para ir à ferroviária apanhar o trem?

– Aqui não dizemos apanhar, mas sim pegar.

– Dejas de bromas!!! Muy bien, como pego o ônibus para ir à ferroviária pegar o trem?

– Não precisa ir, é aqui mesmo!

– Caracoles, hay que preguntar: como ustedes llamam ?hijo de putanas? en Brasil?

– Não chamamos! Eles vêm da Argentina para jogar no Corinthians!