O que você faria com 150 milhões ganhos na Mega-Sena? E se essa fortuna fosse produto do cinematográfico roubo do Banco Central do Ceará, o que você faria com o dinheiro? Guardaria no Estádio Pinheirão, um esconderijo perfeito, onde ninguém vai?
Com os 150 milhões da Mega-Sena, qualquer um depositaria o montante no banco e seis meses depois, na mais absoluta reserva, iria pensar no que fazer. Com os 150 milhões cearenses, o buraco é mais embaixo. Ou, mais precisamente, um túnel de 80 metros, com 70 cm de largura, revestido de madeira e lona plástica, que alcança o cofre do Banco Central, de onde foram levadas 3 milhões de notas de R$ 50, embaladas em pacotes de mil notas e que pesariam 3.500 quilos. O que fazer, onde esconder, como usufruir de 3.500 quilos de dinheiro?
Comer o dinheiro? Não seria aconselhável, pois a Polícia Federal adverte: essa dinheirama é prejudicial à saúde: as notas não eram novas. Eram cédulas antigas, já manuseadas, com números de série não seqüenciais, e não tinham passado ainda por nenhum controle interno do Banco Central que possa identificá-las. Elas passariam por análise para saber se seriam mantidas no mercado ou seriam queimadas, pela má qualidade, e isso vai facilitar a ?lavagem? desses milionários ?recursos não contabilizados?. Um caixa 2 que resolveria todas as pendências de Marcos Valério, que fez de tudo para cavar a vida, só não arriscou cavar um ?valerioduto? sob o traseiro – para usar uma expressão em lulês – do Banco Central cearense.
?Republicano? é a nova palavra em moda, nascida da ?novilíngua? parlamentar. Exemplificando, ?republicano? é um assalto urdido e cavado através dos esgotos do poder, um ?valerioduto?. ?Não-republicano? é um assalto cavado através dos esgotos de Fortaleza, findando no arrombo de um cofre público, propriamente dito. A diferença entre assalto ?republicano? e ?não-republicano? é que o primeiro pode ser facilmente desfrutado, depois de bem ?lavado? na contabilidade de uma empreiteira ou de uma agência de propaganda. Já o desfrute de um assalto ?não-republicano? requer prática e muita habilidade, uma tarefa para profissionais, operação que não está ao alcance de amadores do feitio delubiano.
Alugar uma casa para montar uma empresa de fachada, escavar um túnel sob uma avenida movimentada de Fortaleza e arrombar um piso de concreto e aço, e sair levando 3.500 quilos de dinheiro, sem ser notado, isso até o finado diretório nacional do PT seria capaz de executar. Agora, esconder, lavar e escapar impune com mais de 50 milhões de dólares, é que são elas.
Como você agiria se aquela fortuna lhe despertasse ?instintos mais selvagens? e estivesse de posse de um Land Rover com três toneladas e meia de dinheiro roubado? Enfiaria tudo na cueca e embarcaria no primeiro avião rumo a Miami? Impossível. Nem na cueca do ex-gordo Roberto Jefferson caberiam tantos ?recursos financeiros?.
As malas vão rolar e o segundo maior assalto do Brasil – o primeiro foi através do ?valerioduto? – há de ter uma segunda etapa ainda mais cinematográfica: transportar o butim até uma ilha fiscal, sem dar com os burros n´água. Isso não será uma operação tão fácil quanto passar no Banco Rural e botar os dólares na cueca. São muitas as hipóteses e ainda veremos que os 150 milhões ?não contabilizados? podem estar enrustidos em local jamais imaginado: num bangalô na praia de Canoa Quebrada, no fundo das águas de Mucuripe ou enterrados na vizinhança do cantor Fagner.
Nas falcatruas do Marcos Valério, só faltavam ingredientes que enfim apareceram: sexo, hotel e rock´n´roll. Também no grande assalto de Fortaleza, essa é a primeira pista que a Polícia Federal deve investigar: sigam as luzes vermelhas. Em algum bordel de beira de estrada o bando deve estar torrando três toneladas e meia de dinheiro.