Serenata para don Cecílio

Não se pode dizer que Cecílio do Rego Almeida é um camarada de poucos amigos. Tem muitos, mas inimigos é que não faltam ao empresário colecionador de fortunas encrencas. Os inimigos de don Cecílio não mandam flores, os muy amigos fizeram serenata na sua janela.

Nascido em Óbidos, no Pará, o jovem Cecílio do Rego Almeida deve ter dedicado muitas serenatas às mocinhas de Curitiba, assim chegado ao Paraná, berço de suas empresas. Hoje dedica-se a cantar nas janelas da imprensa suas próprias verdades e razões. Recentemente, dedicou uma longa entrevista à revista Caros Amigos, onde detonou os canais auditivos de João Pedro Stédile, do MST: é um "f. da p." e "maluco".

Don Cecílio não manda flores e canta grosso com os adversários. Poderoso e temido, mesmo assim o empresário já ouviu uma serenata que lhe tirou o sono, numa longínqua noite de 1986.

João Elísio Ferraz de Campos era governador do Paraná, mandato que o vice de José Richa exerceu entre 9 de maio de 1986 a 15 de março de 1987. Naquele período, organizou uma caravana de empresários, políticos e jornalistas para conhecer o sistema de transporte ferroviário da Vale do Rio Doce, no Pará e Maranhão. Um avião de carreira especialmente fretado decolou com o PIB paranaense a bordo, com a intenção de fazer ver a todos no que ia dar a futura Ferroeste paranaense.

Na primeira classe da aeronave, o governador João Elísio, Francisco Simeão, secretário da Indústria e Comércio, deputados, líderes empresariais e o todo-poderoso Cecílio do Rego Almeida, o don Cecílio. Na classe econômica e festiva, digamos assim, um bando de jornalistas, representando a imprensa local e as sucursais de jornais e revista de circulação nacional.

Cláudio Lachini, Nílson Monteiro e Eduardo Sganzerla comandavam o bando, que aqui em Curitiba chamamos de caterva. O também jornalista Geraldo Bolda seguia à frente, no cargo de secretário de Comunicação do governo.

Na volta da expedição, a aeronave fez uma escala em Ipatinga, Minas Gerais, para reabastecimento de energias, inclusive etílicas, onde a comitiva se hospedou numa pousada composta de vários chalés. Foi boa a festa, previamente organizada pelo cerimonial de João Elísio, sempre um descontraído e perfeito anfitrião.

A noite é uma criança para a caterva da imprensa, mesmo retornado da Serra dos Carajás. João Elísio foi um dos primeiros a se retirar do jantar, seguido de Cecílio do Rego Almeida, que se acomodou num chalé isolado e solitário. Fazia muito calor e os adiantados brindes pediam algo mais. Quem sugeriu o algo mais foi Cláudio Lachini:

– Rapazes da caterva, vamos fazer uma serenata para don Cecílio?

Por que não? A pedidos, Geraldo Bolda foi acordar João Elísio, que o irreverente governador não podia perder uma serenata daquelas.

Geraldinho foi e voltou com João Elísio vestindo um bermudão, que mais parecia uma cuecão. Governador à frente, o bando se dirigiu à janela do chalé de don Cecílio, que foi acordado com a Bandiera rossa, o hino do Partido Comunista Italiano.

Avanti o popolo, alla riscossa / Bandiera rossa, Bandiera rossa / Avanti o popolo, alla riscossa / Bandiera rossa trionferà / Bandiera rossa la trionferà / Bandiera rossa la trionferà / Bandiera rossa la trionferà / Evviva il comunismo e la libertà!!!

Quando a janela de don Cecílio entreabriu-se, a letra do hino comunista ganhou versos aditivos:

Avanti popoli / cantiamo aria / reforma agrária!!!

E continou o refrão:

O comunisti, alla riscossa / Bandiera rossa trionferà / Bandiera rossa la trionferà / Bandiera rossa la trionferà / Bandiera rossa la trionferà / Evviva Lenin, la pace e la libertà!!!

Don Cecílio quase pulou da janela, injuriado:

– Até tu, João Elísio?

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