| Caricatura de Stalin. |
Há algo de podre no reino da Dinamarca, ou algo de podre no reino de Alá? Há, isto sim, tudo de podre onde reina a intolerância.
Nestas férias de janeiro, terminei de ler a biografia de Stalin, Triunfo e tragédia, de Dmitri Volkogonov, um ex-general russo que não fez uma caricatura de Josef Stalin. Mais que isso, retratou o tirano com sua real expressão de crueldade e, principalmente, com a face da intolerância.
Dmitri Volkogonov era de extração castrense, é preciso não esquecer, antes de começar a folhear os dois volumes da obra – 1879/1939 e 1939/1953 -, num total de 620 páginas. Considerando sua origem, muitos suspeitam da parcialidade do escritor, ao revelar os intestinos da ditadura stanilista que ceifou 22 milhões de vidas, na contabilidade feita após a queda do muro de Berlim.
Volkogonov não só era um ex-general da "ditadura do proletariado", como também nasceu de uma família internada num "gulag" (sigla em russo da Glovnoye Upravleniye Ispravitelno-Trudovyhl Lagerey. Ou seja, repartição central dos campos de trabalhos corretivos), cujo pai também foi um militar fuzilado por Stalin.
A obra pode ter sido uma vingança do autor? Se assim foi, que vingança soberba! Volkogonov era um general da linha dura, quando deixou o setor político e de propaganda do Exército e assumiu o cargo de diretor do Instituto de História Militar. Escreveu o livro com a chave do cofre da memória soviética na mão. São impressionantes as minúcias documentais: das atas dos congressos comunistas, aos bilhetinhos de Stalin grifados com grossos riscos de caneta vermelha, onde mandou milhões de russos para o quinto dos infernos.
Portanto, seria o general suspeito para falar das atrocidades de Stalin? Quando Khruschev subiu nas tamancas, no XX Congresso do Partido Comunista, em fevereiro de 1956, naquele momento o ex-seminarista Stalin descia à lata de lixo da história. Dmitri Volkogonov apenas jogou os excrementos que restavam no bigodão da besta.
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Na página 226 do primeiro volume, o autor russo conta que o líder genial, "na pausa de trinta a quarenta minutos que fazia na condução dos negócios oficiais, ele passava os olhos pelos artigos e folheava os últimos romances publicados".
De vez em quando, acionava a campainha para chamar um assistente e pedia ligação para falar com um escritor, para poder dar pessoalmente congratulações ou fazer comentários. Por vezes, pegava a caneta e escrevia o que pensava sobre a obra. Depois de ler Nas estepes da Ucrânia, de Korneichuk (1940), Stalin escreveu o seguinte bilhete:
"Li seu livro Nas estepes da Ucrânia. Trata-se de uma obra maravilhosa, artisticamente inteira, jovial e alegre. Só me preocupo se não é um pouco alegre demais. Existe o perigo de o excesso de alegria numa comédia desviar a atenção do leitor em relação ao conteúdo. Aliás, inseri algumas palavras à página 68. Elas tornam as coisas mais claras.
Cumprimentos. I. Stalin".
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Ao cair em suas mãos um texto do escritor satírico Mikhail Zoshchenko, Stalin leu, não gostou e mandou expulsar o atrevido do sindicato dos escritores. Ou seja, deixou Zoshchenko sem o leitinho das crianças. O mais incrível foi a reação da esposa, Vera, que mandou uma carta "enlouquecida" a Stalin, confessando detalhes íntimos acerca do perseguido humorista:
"Altamente neurótico… e tem estranhas obsessões. Temia por demais enlouquecer, como Gogol. Começou um tratamento de auto-análise e teve certo sucesso. Sua doença provocou nele o sentimento de sátira, e aí está o problema. Mas ele é incapaz de se submeter à vontade dos outros, não consegue agir sob as ordens de ninguém".
A "loucura" de dona Vera deu certo: Stalin não mandou o engraçadinho para o fuzilamento.
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Eis aí o satã que se esconde no reino da Dinamarca: esse maldito sentimento de sátira, ontem e hoje, sempre faz as suas vítimas.