Na noite de domingo, a vereadora Nely Almeida recebeu uma mensagem de Felix do Rego Almeida:

– Venha logo que o Maurício Fruet está fazendo um “carneiro afrodisíaco” para comemorar a vitória do Gustavo. Os velhos e queridos amigos estão quase todos reunidos pra festa que vai durar mínimo uma eternidade.  

– Me dá um tempinho pra retocar a maquiagem que amanhã bem cedinho estarei aí. Lhó, lhó, lhóóó… se eu vou perder essa!

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E assim a vereadora Nely Lídia Valente de Almeida se foi. Curitibana pelo casamento com o lendário médico Félix do Rego Almeida, catarinense de origem, jamais perdeu o sotaque catarina. Tanto que ela merecia ter um tradutor de “catarinês” a tiracolo para se fazer entender pelos leitE quentE do Paraná.

Vereadora por seis mandatos, na primeira apresentação aos eleitores pela TV foi de uma sinceridade absoluta: falou da carreira do marido e dos três filhos Cristina, Elizabete e Renato (“Todossh criadossh!” – disse Nely no seu bem pronunciado “catarinês”), o que lhe dava tempo para se dedicar com mais empenho à comunidade.

Na esteira do trabalho humanitário do doutor Félix – uma das referências da antiga Santa Casa de Misericórdia de Curitiba e que atendia a ricos e pobres da mesma maneira eficiente e apressada, sem delongas – ela se dedicou especialmente à terceira idade. Quem tem mais de 65 pode se deslocar pela cidade inteira de ônibus, pois foi dela a lei da gratuidade no transporte público.

Sua face menos conhecida da população foi a de intelectual. Conterrânea e cunhada do escritor e poeta Walmor Marcelino, nas artes plásticas e na literatura deixou obras de qualidade. Só não se dedicou a ponto de viver desses talentos. Preferiu apostar no serviço ao público. Sua elegância no vestir, mas principalmente no trato e nos modos, a fez respeitada e notada na Câmara Municipal de Curitiba. Vai fazer falta, era a “coisa maissh querida!”, como se dizia lá em Bom Retiro, onde nasceu.

Dona Nely, a gente “gosshtava muito di ti, viste?”.