Curitiba aderiu a centenas de outras cidades de todo o mundo que promovem anualmente um dia de abstinência automotiva e o curitibano fez bonito, mandou bem. Quando a média mundial de adesão é em torno de 30%, superamos as expectativas, emplacamos 42%.

Como dizem os italianos, quando querem que o assunto se encerre em pizza, podemos declarar que o dia sem carro em Curitiba foi “discreto, válido, relativo”.

DISCRETO – Com exceção das ruas centrais bloqueadas aos carros, nos demais aspectos tudo transcorreu discretamente. Low profile, o prefeito Cassio Taniguchi não organizou nenhuma escola de samba para desfilar na avenida, como aconteceu no mesmo dia em Goiânia. Taniguchi só botou o bloco na rua para fazer o trajeto de casa até a Prefeitura, a bordo de um Ligeirinho, e, no meio do dia, declarar à imprensa que em torno de 227 mil veículos restaram na garagem. Com esses números, discrição pouca é bobagem. Se contasse isso pela metade, já podia rodar a baiana.

VÁLIDO – A campanha foi válida, não só considerando números, como também se levando em conta que a pedagógica idéia foi realizada em Curitiba pela primeira vez. Sim, no próximo ano esses 42% de adesões podem até cair para dez por cento, no outro ano cair mais ainda. Porém, está escrito nas estatísticas, nas próximas décadas a população vai ter que aderir em massa. E compulsoriamente. Quem viver, verá, como tantas metrópoles já estão vendo.

RELATIVO – Mas tudo isso é relativo, considerando-se que, na nossa cultura, pedestre é palavrão e transporte coletivo coisa de pobre! Resultados relativos, pois não entendemos a vida urbana sem a comodidade do transporte individual e sem o automóvel como ícone de ascensão social do feliz proprietário.

O OUTRO LADO – Enquanto isso, a rapaziada da propaganda esbanja talento no ofício de botar mais e mais carros novos na rua. Para divulgar o novo Audi A2, que é todo fabricado em alumínio, uma agência de propaganda alemã criou um anúncio que inicialmente não passava de uma placa de metal lisa, sem nada inscrito. Porém, no tempo úmido da primavera, o metal não durou muito tempo.

Em apenas uma semana a ferrugem começou a revelar o anúncio, já que a parte da placa que não era feita de alumínio foi sendo corroída. No final de um mês, toda a placa já tinha sido atacada pela ferrugem e o anúncio ficou então totalmente visível. A imagem do carro e o título, All Aluminium Audi A2, protegidos pelo alumínio, permaneceram intactos. Toda essa produção para dizer: – Alumínio não enferruja, logo, o Audi A2 também não.

OBJETO DE PAIXÃO – Se pra você “O dia sem meu carro” não chegou a emocionar, de cortar o coração é a história daquele pai que deu ao filho o dinheiro contadinho para pagar a conta da luz e da água. O guri, ao passar pela Rua das Flores, cruzou com um camelô vendendo uma rifa baratinha e tentadora:

– COMPRE UM BILHETE

E CONCORRA A DOIS CARROS!

O garoto caiu em tentação:

– Puxa, eu poderia ganhar esses dois carros! Meu pai há anos vem tentando comprar um carro e não consegue juntar grana nem pruma Brasília amarela. Vou jogar esse envelope da conta de luz pro alto. Se cair com o endereço pra cima, compro. Com o remetente pra baixo, não compro.

Comprou o bilhete. Chegou em casa tardezinha, desviou do pai e foi deitar. Sonhando com os dois carros que seriam sorteados em breve.

E o sonho realizou-se. Semanas depois, quando retornava da escola, o coração do menino bateu forte ao ver dois carros na frente de sua casa.

Um da Copel, outro da Sanepar.

Até sexta-feira, de carro na praia, que ninguém é de ferro.

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