dmen050306.jpgCuritiba receberá neste mês de março dois eventos de repercussão mundial em defesa da natureza. Em torno de 10 mil pessoas de 196 países estarão nos visitando. Vamos abrir a nossa casa para receber chefes de Estado, cientistas, técnicos, diplomatas, jornalistas – a maioria vem conhecer o primeiro planalto do Paraná pela primeira vez.

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O naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire foi o primeiro cientista a visitar Curitiba. Cá esteve em 1820, no percurso de uma viagem pelo Brasil de 1816 até 1822. Desse périplo de estudos, resultou um conjunto de obras que relatam suas observações de viagem.

Tendo Saint-Hilaire por testemunha, podemos adiantar a todos que os convidados da ONU serão muito bem tratados nesta Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais:

?Quando eu estava quase chegando a Curitiba, avistei logo diante de mim um grupo de homens a cavalo, quase todos uniformizados. Tratava-se do capitão-mor, de um coronel e de vários oficiais do regimento da milícia. Esses senhores dirigiram-se a mim com extraordinária cortesia e, para meu grande desespero, deram-me o tratamento de excelência, o que já me tinha acontecido algumas vezes. Atravessamos por uma ponte feita de tábuas o riacho e entramos na vila dirigindo-nos à casa do capitão-mor. Ali nos foi servido um belo jantar, para o qual foram convidados todos os que eu havia encontrado. A carne era excelente, e diante do prato de cada um havia sido colocado um pãozinho branco muito bem feito. Depois do jantar, o capitão-mor me propôs escolher alojar-me numa casa na vila ou numa chácara pouco distante dali. Optei pela segunda, tendo sido levado até lá por todos os convivas. Depois que me instalei, o capitão-mor e os outros oficiais se retiraram, deixando à minha porta um guarda encarregado, conforme ele, de receber minhas ordens. Conversei com ele alguns instantes, amavelmente, depois o dispensei.

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Não podia existir nada mais encantador do que a posição da chácara onde eu me achava alojado. Situada numa colina a pouca distância de Curitiba, ela domina toda a planície onde a vila está construída. O horizonte é limitado pela serra de Paranaguá, que forma um semicírculo e cujos cumes, ora se mostram arredondados, ora se projetam como pirâmides. A planície é ondulada, e nela se alternam agradavelmente campos verdejantes e matas, no meio das quais ressalta sempre a pitoresca e imponente araucária. À esquerda vê-se, à entrada de um bosque, uma lagoa à beira da qual há algumas casinhas, e ao longe se avista, a sudoeste, a Paróquia de São José dos Pinhais.

Passei nove dias em Curitiba, cumulado de gentilezas pelo capitão-mor e pelos principais moradores. Não há dúvida de que desde que cheguei ao Brasil, em nenhum outro lugar, eu tinha recebido melhor acolhida. Nos primeiros dias da minha chegada, as pessoas mais ilustres da região vieram visitar-me, conforme o antigo costume, e antes de partir não deixei de lhes agradecer.

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O capitão-mor de Curitiba era um excelente homem, jovial, franco, prestimoso, que parecia muito estimado por todo mundo. Ele me cumulou de gentilezas e, a despeito das minhas objeções, fez questão absoluta de que eu comesse todos os dias em sua casa. Mencionarei, de passagem, que o jantar começava sempre, como na França, por uma sopa com pão, o que eu ainda não tinha visto em nenhum lugar desde que chegara ao Brasil?.

***

Os relatos de viagem de Saint-Hilaire constituem uma declaração de amor à natureza. Descreveu com poesia aquele cenário que era uma beleza e denunciou o princípio do fim: as queimadas, o desmatamento e a extinção da fauna.

Serão dois os principais eventos da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB) da Organização das Nações Unidas (ONU): a Oitava Reunião da Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (COP-8) e a Terceira Reunião das Partes do Protocolo de Cartagena sobre Biossegurança (MOP-3).

Auguste-Francois-César Provençal de Saint-Hilaire estará presente, por inspiração. E, novamente, vamos recebê-lo do jeito de sempre.