Conforme prometido na coluna de domingo, uma outra anedota de presidente, essa dos tempos da ditadura.
Quando Millôr Fernandes já dizia:
“Quanto maior a mordaça, maior a mordacidade”.
Os lambaris do Jimmy Carter
Presidente dos Estados Unidos entre 1977 e 1981, Jimmy Carter, novo Nobel da Paz, foi e ainda é ferrenho defensor dos direitos humanos. Assim que adentrou a Casa Branca, vestiu uma surrada calça jeans, como de costume, botou na vitrola o último disco de Bob Dylan, de quem era fã de carteirinha, e pediu pra telefonista ligar para o general Ernesto Geisel, presidente do Brasil:
– Mister Geisel, quero lhe informar que no próximo mês estarei chegando ao Brasil. Tenho informações que o seu governo está violando os direitos humanos, além de torturar seus adversários políticos.
– Presidente Carter, isso é pura intriga da oposição. Meu governo não só está de portas abertas para qualquer inspeção, como também ficarei honrado com sua visita.
– Muito bem, presidente Geisel. Considerando sua boa vontade, deixo a agenda de minha visita por sua conta. Mas, além da agenda política, faço questão passar um dia pescando no Pantanal.
Dito e feito, o cerimonial agendou um longo périplo de Carter pelo Brasil, interrogando autoridades militares e recebendo lideranças políticas e religiosas da oposição. Mas, antes de qualquer coisa, marcaram a tal pescaria no Pantanal. Uma forma de o presidente americano conhecer o Brasil, começando pelo que nos restava de agradável, além do futebol, mulatas e carnaval.
Tudo dentro da maior pontualidade, Carter foi recebido pessoalmente por Geisel, no aeroporto de Corumbá. De lá, partiram para as barrancas do Rio Miranda, escoltados por um batalhão da guarda presidencial e centenas de agentes do SNI, sob o comando do general Figueiredo. Sem maiores cerimônias, o presidente Carter se botou a pescar com seu próprio e moderno equipamento, embaixo de um frondoso jatobá.
Na primeira beliscada, Carter tira da água um mirrado lambari. Outra beliscada, outro filhote de lambari. Mais outra puxada, outro lambarizinho. E assim sucessivamente, o presidente Carter só conseguia pescar lambaris dos miúdos. Um balaio deles, mas tudo dos miúdos. Uma decepção generalizada. Ernesto Geisel, morrendo de vergonha, chama o chefe do SNI, general João Figueiredo, e cobra enérgicas providências.
Figueiredo apanha o balaio de lambaris e sai em desabalada carreira em direção ao rancho de pescaria, completamente equipado, inclusive com energia elétrica.
No interior do barracão, o general ligou um fio na tomada e começou a operação.
Lambari por lambari, aplicava um poderoso choque elétrico, enquanto interrogava em altos brados:
– Cadê os grandões?!? Cadê os grandões?!? Cadê os grandões?!?
E dá-lhe choque no balaio de lambaris.
Até sexta-feira, com um abraço pro Nelson Comel e sua turma, no, os reis dos lambaris, bar do Popadiuk.