Referendo à brasileira

Ontem, os brasileiros com dupla cidadania sofreram em dobro. Em compensação, comemoraram em triplo. Brasil e Itália venceram – não voltam a se encarar tão cedo – e, pela segunda vez no ano, os cidadãos italianos no exterior tiveram direito de voto, por correspondência, para interferir no futuro político da Itália.

Quem nasceu e viveu numa cidade de origem imigrante bem sabe: na Copa do Mundo, o coração não balança. Entre Brasil e quem quer que seja, a terra em que nascemos e vivemos tem prioridade absoluta. Presume-se, e isso se aplica a qualquer etnia, incluídos os nossos japoneses, que ontem viram o Zico comemorar o susto que o Tamada nos deu no primeiro tempo.

Na Copa dos Estados Unidos, a de 94, assistimos à partida entre Brasil e Itália em Nova Trento, Santa Catarina. Quando Paulo Rossi perdeu aquele pênalti e o Brasil foi campeão, a ?italianada? teve que engolir o foguetório dos torcedores de São João Batista, município ao lado, de origem portuguesa. Pendenga de vizinhos, foi a resposta de uma provocação antiga: os ?brasiliani? vieram em carreata apenas responder às provocações de 1982. Naquele ano, o Brasil foi eliminado pela Itália e os de Nova Trento descarregaram os estoques de suas tantas fábricas de foguete no território de São João Batista.

Para os ?oriundi?, foi um alívio ver a ?azzurra? bem longe daqui, tomar os rumos da Alemanha e – eles que sofram! – da Argentina.

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Se depender do ânimo dos italianos, essa Copa de 2006 pode ganhar um sentido especial, justamente quando a República italiana completa 60 anos. No referendo popular de 2 de junho de 1946, o povo italiano escolheu entre monarquia e república, quando as mulheres italianas exerceram pela primeira vez o direito de voto. Era o pós-guerra e ainda era possível encontrar o retrato de Mussolini escondido embaixo de algum colchão. Eleita a república, a Assembléia Constituinte aprovou em 1948 a Carta Constitucional. Um pacto de repúdio à guerra e garantia dos valores democráticos.

Neste 22 de junho de 2006 – logo depois de Inghazi arrancar livre, leve e solto, para driblar o goleiro e selar o placar de 2×2 – encerrou-se o prazo para os brasileiros de origem italiana votarem no referendo que confirmará ou não a validade da reforma da Constituição aprovada em 2005, por inspiração do governo de centro-direita de Berlusconi, precariamente aprovada por maioria simples do Senado, com apenas 173 votos favoráveis, 132 contrários e 2 abstenções.

Os partidos de centro-esquerda, que acabam de conduzir Romano Prodi ao cargo de primeiro-ministro, são contrários a esta reforma e estão pregando o voto ?não? no referendo que vai acontecer neste final de semana na Itália.

Este referendo é tão importante quanto o de 1946. Sob a batuta de Berlusconi, as modificações pretendem mudar a atual forma de governo, instituída pela Constituição de 1948 e baseada na centralidade do Parlamento e no equilíbrio dos poderes Legislativo, Executivo e Judiciário, instituindo uma forma de governo fundamentada no poder maior do primeiro-ministro. Ou seja, dando a Berlusconi o poder de decisão sobre a política do governo, para nomear e revogar ministros e decidir a legislação. Era o ?sonho de consumo? do bilionário Berlusconi: transformar o Parlamento em simples órgão executivo do primeiro-ministro.

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Quatro a um, foi uma quinta-feira gorda para Ronaldão. Bussunda deve estar morrendo rir lá em cima, vendo o Fenômeno se lambuzar no sashimi. Agora, quem vai ter que mexer com os pauzinhos é o técnico Parreira: que time vai enfrentar os africanos na terça-feira? Essa vai ser a pauta dos cronistas esportivos nos próximos dias; esse, o assunto que vai dividir a torcida brasileira.

Titulares ou os reservas? -eis aí uma questão para um referendo.

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