dmen050406.jpgInspira cuidados o retorno do astronauta brasileiro ao solo pátrio. Marcos Pontes há de voltar com na velha geringonça russa, mas o que nos preocupa não são os perigos da estratosfera. São as armadilhas da atmosfera brasileira.

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Já foram para o espaço os US$ 10 milhões que o Brasil pagou para estudar a "germinação de sementes em microgravidade". Agora só nos resta pagar a conta desse rabo de foguete e torcer para que o coronel Pontes volte com os pés no chão e não se deixe carregar nos ombros da vaidade.

Quando retornou da primeira viagem espacial, que durou o tempo de uma partida de futebol, ou uma volta em torno do globo, Yuri Gagarin foi recebido como se a União Soviética tivesse vencido a Copa do Mundo. Moscou reviveu os dias do final da Segunda Guerra Mundial, com a multidão no aguardo de Lenin a se erguer do túmulo para saudar o novo Cristóvão Colombo.

No retorno do astronauta tupiniquim, os nativos deste continente do sul do mundo devem receber em Brasília o redivivo Pedro Álvares Cabral. "A terra é azul", informou o russo Gagarin. "A coisa aqui continua preta?", vai perguntar o brasileiro.

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O roteiro básico da chegada de Marcos Pontes ao Brasil não será muito diverso da recepção aos campeões do futebol, ou do calvário que foi o enterro de Ayrton Senna: vivos ou mortos, somos carentes de heróis.

Luiz Inácio Lula da Silva vai receber o astronauta em palácio, com um discurso comparando o primeiro brasileiro a ir tão longe com o primeiro operário a chegar tão alto; o avião da Varig que o levaria a um périplo às capitais não levantará vôo por falta de manutenção; no Rio de Janeiro, a multidão ficará no aguardo de Roberto Marinho se erguer do túmulo para um jantar de gala no Jardim Botânico.

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Uma agenda cheia, porque o circo não pode parar: Marcos Pontes lava as escadas do Senhor do Bonfim ao lado de Antônio Carlos Magalhães; Geraldo Alckmin e José Serra desfilam com o astronauta na Avenida Paulista engalanada; o filho de Bauru recebe do empresariado paulista o título de Homem de Visão do Ano; Paulo Maluf insiste em entregar ao herói um carro novo; o bispo Edir Macedo anuncia que Ele chegou; a convite de Ricardo Teixeira, o craque do espaço dá o pontapé inicial e inaugura a Copa do Brasil ao lado de Pelé.

Quem viver, verá!

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Para quem ficou tanto tempo olhando o Brasil assim distante, e "não precisou sequer tomar remédios para enjoar", tantas homenagens não devem causar engulhos. Somos um povo crédulo e acalorado, o delírio coletivo faz parte do nosso cerimonial de entronização no panteão da glória.

O que vai nos causar náuseas é o desfile que virá a seguir, quando entrarem em cena os cerimoniários da política. A partir de então, inspiram cuidados os seguintes passos do astronauta na atmosfera pátria. Também o céu da vaidade não tem limites.

Pouco importa se Marcos Pontes possui oxigênio suficiente para orbitar na esfera política. Nasceu paulista e isto já basta para alcançar os píncaros do poder. Sempre voando fora de alcance dos radares, o senador Jorge Bornhausen deve sinalizar ao coronel para aterrissar no PFL. Orestes Quércia vai lhe oferecer uma carona na nave sem rumo do PMDB. "Ao lado do astronauta, Geraldo Alckmin pode decolar", dirá o Ibope, considerando o perfil suprapartidário de um vice-presidente.

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Duda Mendonça não faria melhor. Para Luiz Inácio Lula da Silva, o astronauta vai cair dos céus: com esses novos e anônimos ministros que nem mesmo o chefe da nação – que vive no mundo da lua – sabe os nomes, o bem-vindo será a salvação da lavoura.

Requisitos o coronel Pontes amealhou, depois desse insignificante investimento de US$ 10 milhões para estudar "a germinação de sementes em microgravidade, o primeiro experimento exploratório que poderá nos ajudar a mapear alterações significativas em processos biológicos envolvidos na germinação e nas fases iniciais do desenvolvimento de plântulas de uma espécie arbórea tropical".