Quanto vale uma vela?

Por mais que se tenha uma parafernália tecnológica dentro de casa – computador, tevê e internet a cabo, forno de microondas, eletrodomésticos de última geração-, enfim, em certos momentos não há como substituir uma singela vela, de singela luz.

Foi o que aconteceu no fim de tarde e noite adentro de domingo passado.

Para quase metade dos habitantes de Curitiba, que ficou no breu, contando a região metropolitana, achar uma humilde velinha branca perdida no fundo da gaveta foi uma bênção divina. Ou seja, em torno de 700 mil velas curitibanas foram sacadas do esquecimento para salvar uma urgente ida ao banheiro ou iluminar uma perigosa incursão à cozinha, depois do susto de um impiedoso São Pedro nos apedrejando lá do alto.

E uma vela perdida no fundo de uma gaveta alhures, quem não há de ter? Pode ser uma vela que sobrou do último aniversário, com o número 7 do filho que hoje tem 17. A vela de macumba, por que não? Uma vela de novena comprada na igreja do Perpétuo Socorro, no Alto da Glória, em véspera de um atletiba nervoso. Ou uma dessas tamanho padrão, filha sobrevivente de um pacote comprado para levar para a casa de praia, onde vela é artigo de primeira necessidade, pois de dia falta água e de noite falta luz.

Daí que não podemos levar a sério os profetas da modernidade, estes que apostam num breve fim da vela, do livro, do papel, do radinho de pilha, da caixa de fósforos, do fogão a lenha e de um bom café feito no coador, pois somos sobreviventes do tempo que não precisava de tomada pra tomar um cafezinho.

Bom exemplo é a redação deste jornal. Como se não bastasse a quase total informatização, só faltando substituir a imaginação do redator e o olhar do impressor por um programa de Bill Gates -, no fim do ano passado ganhamos uma moderna cafeteira italiana. Apertamos dois botões e pronto: eis o café expresso. Antes, o cafezinho era o da cantina da dona Maria, ou então o café passado no coador da brava rapaziada dos fotolitos. Com todo respeito à dona Maria, mas o café dos rapazes ganhava de longe.

Hoje, quando se instala o breu, como aconteceu no vendaval de domingo, é o caos. O que nos salva é o coador, é a caixa de fósforos, são aquelas velas esquecidas no fundo da gaveta e, acreditem, uma Olivetti velha de guerra, que pra editar títulos e legendas ainda tem serventia. À luz de vela.

Chico Assis, nosso jovem secretário de Redação, casou faz pouco tempo. Quando começou a montar o apartamento, recebeu de presente da irmã Fernanda Maria Assis Monteiro, atualmente juíza em Francisco Beltrão, uma antiga cômoda que lhe sobrava em casa. Bela mobília, nada que uma boa limpeza não a deixasse nova em folha.

Quando começou a tirar o pó, eis que Chico Assis encontra no fundo de uma das gavetas um pacote de velas, daquelas. Imediatamente ligou para Francisco Beltrão e destrambelhou a irmã:

– Então, interiorana!… Quer dizer que aí no mato vocês ainda usam velas?

Domingo passado, veio o troco: a irmã Fernanda soube que Curitiba estava às escuras e telefonou para o irmão:

– Chiquinho, sabe a cômoda que eu te dei de presente? Lembra que no fundo da gaveta tinha um pacote de velas? Pois faça bom proveito!

Do fundo da gaveta, aquele pacote de velas salvou o domingo do Chiquinho.

Até sexta-feira e data venia, meritíssima Fernanda Maria Assis Monteiro: quem guarda, sempre tem!

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