Quanto dói um peixe na Quaresma

É hoje! É hoje o dia do desfile do bloco ?O que é que eu vou dizer em casa??. Era uma vez, antes do computador, um poderoso diretor de redação de um também poderoso rotativo que fechou a edição do jornal de sábado de Carnaval, ajeitou na cabeça um legítimo quepe de almirante e caiu na folia. Na manhã de quarta-feira de cinzas, depois de repousar no motel, se enclausurou no vespertino para planejar ?o que iria dizer em casa?.

Enquanto isso, a patroa se dirigia ao mercado público para cumprir o sagrado preceito da Quaresma: comprou um bem apanhado peixe e, feita uma arraia ferida, se dirigiu ao local de trabalho do veterano periodista.

Ela encontrou o folião arrependido com os pés sobre a mesa forrada de fotos de rainhas e princesas, catando confetes que coabitavam com a caspa do couro cabeludo, e batucando o refrão que também não lhe saía da cabeça: ?o que é que eu vou dizer em casa??.

– Daqui não saio, daqui ninguém me tira, enquanto você não confessar os teus pecados, velho devasso!

Por sorte, o cachimbo de ?Popeye? lhe caiu da boca e foi se esconder sob a escrivaninha. No átimo de segundo que se abaixou para vasculhar no chão, o peixe rodou no ar e raspou caspa e confete da cabeça do folião. O peixe rodou novamente e, tomando força centrífuga em várias voltas, se descamou nas costas do velho almirante.

Há testemunhas. Surra de peixe abriu a Quaresma, e a notícia não deu no jornal.

***

Cenas como esta nunca serão vistas nas redações dos jornais. Foram-se os tempos da boemia da imprensa, hoje os jornais contam com seguranças na portaria, os visitantes só entram anunciados portando crachás, e a nova geração de bem comportados jornalistas bem poderia se inscrever na recém-criada Associação dos Maridos Mandados pelas Mulheres (AMMM).

Com uma filial em Mato Grosso e outra em Paranavaí, aqui no Paraná, a AMMM foi fundada na cidade catarinense de Trombudo Central – registrou o Fantástico e reportou o jornal Diário Catarinense: ?Um grupo de 24 amigos – entre empresários, funcionários públicos e até o prefeito e o vice-prefeito do município de 5,8 mil habitantes – não tem medo de assumir que a última palavra é sempre delas.

O ponto de encontro dos maridos submissos é o Müller?s Bar, no Centro da cidade. Apesar dos bolos e pastéis da proprietária Liska Müller, 69 anos, serem famosos na localidade, o que atrai o grupo, todas as sextas-feiras, a um dos primeiros estabelecimentos da Rua Getúlio Vargas, são as loiras geladas.

Quando o telefone toca no balcão do bar, no entanto, os homens suam frio. É assim há seis anos, desde a fundação da associação. Do outro lado da linha, está a esposa de um deles. Em vez de ligarem no celular, elas fazem todas as chamadas para o número fixo, para terem certeza de que o marido está lá?.

Elas mandam, eles obedecem – e se a moda pega, marido que não apanha de peixe se inscreve no rol dos ?trombudos?. Ou seja, os que baixam a tromba.

A Associação dos Maridos Mandados pelas Mulheres tem estatuto e adotou como hino uma música, do grupo Garotos de Ouro, que leva o mesmo nome da associação. Os ?trombudos? se reúnem para tomar cerveja, jogar conversa fora e não abrem mão de homenagear as soberanas. No Dia das Mães e no Dia dos Namorados, eles enviam rosas e chocolates para demonstrar o amor e carinho que sentem pelas companheiras. Cada integrante paga uma mensalidade de R$ 20. O dinheiro cobre as despesas com eventos especiais, bailes festivos, encerramentos de fim de ano.

Para ser membro da Associação dos Maridos Mandados pelas Mulheres é preciso aprovação unânime de todo o grupo. Isso não só para garantir a qualidade dos encontros, mas – principalmente – para não restar a menor dúvida de que o candidato a marido servil desconhece o quanto dói um peixe na Quaresma.

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