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Justamente agora nos faz falta uma antiga publicação da Casa da Memória de Curitiba, não editada faz tempo, não se sabe bem porque. Chamava-se Memória de Vida. Era um tablóide, coisa barata, mas nele vinham formatados textos, fotos e até desenhos, o que tínhamos para contar de memória dos amigos que se iam. Um deles contava da vida do jornalista Renato Muniz Ribas. O lançamento, depois da missa de sétimo dia, foi numa grande folia no bar Botafogo. Bem do jeito que Renatão gostava.
As memórias de vida de Jamil Snege, seria uma riqueza vê-las quase todas reunidas, mesmo em papel jornal. Até imagino como seria a edição. Na capa, abriria um desenho do Solda, retratando o escritor envolto num emaranhado de letras, como faria o cartunista, que deve ao publicitário Jamil Snege seu primeiro ofício numa agência de propaganda e também o primeiro empurrão no precipício das letras.
Nas duas páginas seguintes, reservaria para o emocionado texto que o escritor Wilson Bueno deve estar escrevendo, se já não escreveu, vertendo em lágrimas as memórias do amigo, inclusive na Curitiba dos últimos quase 40 anos.
Uma página para o jovem Roberto Requião da década de setenta, bom ouvinte do bom contador de histórias que encantava os boêmios, embalados a café, nas tertúlias do Café Colonial do Hotel Deville, na Comendador Araújo, reuniões presididas pelo saudoso comunista e livreiro Aristides Vinholes.
Outra página para um legítimo texto de Dalton Trevisan, escrito por Jamil Snege nas horas vagas, que ele era mais vampiresco que o próprio Vampiro.
Avante, duas páginas para Carlos Alberto Pessôa recordar das mil e uma noites do turco Jamil. As peripatéticas caminhadas do grupo com o Vampiro atento – pela Rua das Flores, varando a neblina, varando madrugadas.
Até aí já foram sete páginas das dezesseis do tablóide, com direção de arte de Bira Menezes. Das restantes, editaria uma para o Fábio Campana, uma para o especial amigo Aroldo Murá, outra para as fotos de seu filho fotógrafo Daniel Snege. O miolo guardaria para retratos do afeto: flagrantes do filho mais novo Jean Marcel com a mãe Vera Bachmann, a tradicional foto de casamento com a primeira esposa Luiza, Jamil soldado no Rio de Janeiro, outra foto de piá curitibano ao lado dos irmãos Sheila e Iberê, que forneceriam o álbum da família criada ali na rua Engenheiros Rebouças.
Como última página, nesta seria impressa uma graciosa história compartilhada por Jamil, por Solda e por mim. A história de quando compartilhamos paixões por uma menina que era uma graça, de nome Graça.
Cartunistas afeitos a fazer graça, cometemos a imprudência de compartilhar com Jamil nosso amor somente insinuado, nas tantas tímidas visitas que fazíamos à Graça musa. Até então apenas confidente, perpetramos a imprudência maior: apresentamos Graça ao poeta. Ele, com todo o seu charme, verve e graça, sem dó nem piedade nos tomou a Graça.
Para jovens cartunistas afeitos a fazer graça, foi um enredo com final muito sem graça. Perdemos a Graça.
A musa e o poeta foram felizes para sempre por um bom tempo. Graça hoje mora em Paris e Jamil no céu. O que é quase a mesma coisa!
Até quarta-feira, sem Jamil Snege, um próximo dia assim sem graça.
