Quando o sol não nasce para todos

DOMINGO, 21 DE DEZEMBRO, um melancólico bota-fora da primavera e início de verão no Brasil Meridional. A praia era um baldio, a paisagem desoladora, quase lunar, não fosse um pequeno bando de pálidos argentinos pulando a terceira onda do mar. Desde Buenos Aires, comboiaram o vento frio e a chuva esparsa. Muito azar. Ao Norte, chuva; ao Oeste, chuva; ao Leste, uma nesga de céu azul na altura da costa africana.

Não fosse a sorte do catarina de Ituporanga, o que ganhou sozinho os 42 milhões da mega-sena, tudo seria ainda mais desolador, conduzindo a soníferas conversas.

Como esta, travada com um paulista sob um gazebo cheirando a mofo, entre um gaúcho, um catarina, um paranaense. Os quatro olhando o mar batido, salpicado pela garoa fina. Depois de horas de silêncio, retomam o tema da hora. Diz o paranaense:

– Premiado na mega-sena, compraria várias fazendas de soja no Paraná, outras várias no Mato Grosso, metade da Copel, o Boticário e metade da Ilha do Mel.

Silêncio total, só quebrado pelo chiado esparso da chuva e o vaivém das ondas. O catarina, depois de longo tempo, fala:

– Pois eu compraria vários apartamentos de cobertura em Floripa, mais o Costão do Santinho, a Sadia e a Perdigão.

O gaúcho, que até então bebia quieto seu chimarrão, também botou a colher:

– Pois eu, tchê… compraria a Zero Hora, a Varig e um time decente pro Grêmio.

O paulista, depois de um gole na caipirinha, completou:

– Não vendo!

E os três continuaram calados, enquanto a chuva recrudescia, para desespero do vendedor de milho cozido, pamonha e coco, família oriunda do Norte do Paraná.

– Se a coisa não melhorar até o Ano Novo, vou de partida para o Araguaia. Sabia que lá o rio desce e forma uma praia maior do mundo? Sem chuva e vento sul! E o coco com preço decente. Até ontem vendia a R$ 1,50. Agora subiram, preciso vender a R$ 2,50. Tô sentindo que essa vai ser a temporada do cheque sem fundo. Os da freguesia e, principalmente, os meus próprios!”

Justamente, pelo que se deduz do cartão de fim de ano do Palocci: “Feliz Natal ou um Próspero Ano Novo. Os dois, não dá!”. E se o cidadão espera, além disso, muito sol, calor e coco fresco, pode tirar o cavalinho da chuva.

QUARTA-FEIRA, 24 DE DEZEMBRO, o verão traz criaturas de todos os quadrantes. Perdedores e vencedores. Vencedor está sendo o fotógrafo chileno Gery Hurtado. Montou um painel com a imagem de uma cinematográfica onda atrás de uma prancha de surfe suspensa. Com uma modesta máquina digital ele fotografa as pessoas sobre a prancha. “A idéia é inédita no Brasil”, diz Hurtado, contando maços de dinheiro da clientela que não tem coragem de enfrentar o mar gelado e o vento sul. Como, por exemplo, o paulistano Endovino Mathias, dono de uma revendedora de carros, imprecando aos céus por tamanho infortúnio:

– Com o espetáculo do crescimento, minha patroa me convenceu a comprar um apartamento de praia, aqui no Sul. Eu preferia comprar no Nordeste. No par ou ímpar, deu Sul. Antes tivesse comprado em Bariloche. Até o presente momento, já conhecemos todos os shoppings, de Curitiba a Floripa. Ô meu, mas também não posso me considerar um pé-frio. Pelo menos me livrei da sogra, neste Natal.

Há exatamente uma semana, meteorologistas enxergavam grandes possibilidades de “céu de brigadeiro” somente a partir de 10 de janeiro. A ocorrência de várias frentes frias causava este clima, destinando um lamentável destino turístico para o paulistano Endovino: veranear em shopping, ainda passando constrangimentos. A caminho do novo apartamento, depois de conhecer mais um outro shopping, ele sentiu uma dor de barriga e parou para ir ao banheiro… num outro novo shopping. Como o primeiro sanitário estava ocupado, Endovino entrou no seguinte. Quando estava sentado no vaso o cara ao lado pergunta: – E aí? Tudo bem? Embora não fosse de dar conversa a desconhecido, em banheiros públicos, respondeu: – Bem… vou levando, ô meu! Novamente, o cara ao lado perguntou: – E daí, companheiro, o que você tem feito? Embora começasse a achar o assunto meio paulistano, respondeu: – Ô meu, agora estou aqui no banheiro. Depois volto pro apartamento de praia que acabei de comprar. Então ouviu o cara ao lado dizer, bem indignado: – Olha, tem um cara aqui no lado que cismou de me responder cada vez que te faço uma pergunta. Vou desligar, te ligo depois!

SÁBADO, 27 DE DEZEMBRO, Sua Majestade o Sol deu o ar de sua graça no Brasil Meridional. Não há mal que sempre dure, e a esperança é a última que morre na praia. Em Camboriú, contam testemunhas, ele surgiu na altura da rua 1500, entre um edifício de 30 andares e um outro de 25. Em Floripa apareceu na Lagoa da Conceição e saudou a numerosa torcida gremista, que escapou da terceira divisão. Em Guaratuba ele foi visto atravessando o ferryboat em direção a Matinhos e Caiobá, onde foi prestigiar o prefeito José Maria Correia, na inauguração das obras de revitalização da Praia Brava. E na Ilha do Mel deu uma banda nas Encantadas. Foi só, apesar dos protestos dos que dormiram de touca e galocha, sem pegar o primeiro bronze do verão.

DOMINGO, 28 DE DEZEMBRO, no maior balneário do Atlântico Sul, o sol virou cuco. De uma em uma hora mostrava sua cara. Foi o suficiente para os sete quilômetros de orla baldia serem preenchidos por um número incalculável de pingüins. De uma espécie transgênica, tradução do DNA de argentinos, paraguaios, gaúchos, catarinas, paranaenses e paulistas. Uma transmutação exótica de pingüins: brancos e com calções pretos.

Assim é Balneário Camboriú, onde o sol nasce para todos. Mas o pôr-do-sol é só para os que têm apartamento de cobertura.

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