Quando o destino faz a curva

União da Vitória só não será uma cidade gêmea de Guaratuba porque o seu cordão umbilical já está unido com Porto União. Antes unidas pelo caminho do sol, Guaratuba e União da Vitória agora são irmãs por parte da tragédia. Duas cidades na divisa com Santa Catarina – uma serra abaixo, outra serra acima -, foi na última curva perigosa da Serra Dona Francisca que o destino fez a curva, causando a morte de 51 pessoas que participariam de um encontro de umbandistas na praia de Coroado, em Guaratuba.

De acordo com os organizadores do evento, umbanda e candomblé têm o costume de fazer oferendas na praia logo na virada do ano e do Dia de Iemanjá, em fevereiro. Como o grupo de União da Vitória está distante do litoral, os trabalhos de fé eram realizados em março, na orla mais próxima.

O reino de Iemanjá, a rainha das águas, vai muito além da Serra Dona Francisca. Além de Joinville e Garuva, passando pelos cenários da Guerra do Contestado, também protege as barrancas do Rio do Iguaçu.

Antes de atravessar os trilhos que dividem para fins cartográficos União da Vitória (PR) e Porto União (SC), as cidades gêmeas, é preciso ouvir com atenção as histórias que contam nos pesqueiros das barrancas do Iguaçu. Das tantas, uma delas é o “causo” de um visitante de primeira viagem que partiu de São Paulo, pelos trilhos da Estrada de Ferro São Paulo – Rio Grande, para comprar madeira em União da Vitória.

E lá veio o trem, passa boi, passa boiada, atravessou os pinheirais forrados de erva-mate e, enfim, chegou à antiga estação ferroviária. Dizem os antigos que o forasteiro desceu do trem e, desavisado daquele composto urbano, só teve tempo para ler numa placa o nome da cidade em que pisava:
– Porto União.

O passageiro com destino a União da Vitória, achando que tinha embarcado na linha errada, imediatamente comprou outra passagem e retornou a São Paulo.

Para melhor desenhar a paisagem que cerca União da Vitória e Porto União, é preciso buscar no fundo do baú a genérica narrativa do viajante Visconde de Taunay:

“Com efeito, dali se descortina o pitoresco e alongado vale em que majestoso corre o Iguaçu, cercado por densa orla de vegetação. E por toda a parte, lindas quebradas, inúmeros capões de mato a salpicarem de pontos sombrios a imensa, interminável alfombra verde do prado”.

Hoje a paisagem já não é a mesma, por força da natureza do homem. Igualmente, é outra a saúde das águas, porque ali deságuam todas as mazelas das nascentes na Região Metropolitana de Curitiba (mazelas políticas, inclusive). Assim mesmo, a natureza que envolve o Rio Iguaçu é motivo de orgulho para quem vive nas cidades gêmeas. Se Curitiba da falta do mar se ressente, Porto União e União da Vitória fazem daquela curva do rio o seu próprio balneário.

Dizem que uma estrada de ferro separa os dois municípios, fazendo divisa com o Paraná e Santa Catarina. Só mesmo colando um pé lá e outro cá é que se descobre que nada os separa, tudo os une: a cultura, os costumes, a linguagem, a camaradagem e agora, principalmente, a solidariedade com as famílias enlutadas de um lado e de outro dos trilhos. Essa brava gente da curva do rio que agora chora na curva da serra.

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