Aquarela de Dante Mendonça, mostrando
um cantinho de mar, visto do bar.

Se aposentou e foi mesmo morar na praia. Mês a mês manda notícias contando de sua nova vida para o estimado filho

JANEIRO – Estimado filho, tenho a lhe comunicar boas novas: me aposentei e agora vamos morar na praia. Vendemos nossa casa. Em março estaremos de mudança para o litoral. Lembra quando eu falava pra tua mãe? Quando me aposentar, vou morar na praia! Ela duvidava. Beijo da mãe, bênção do pai.

FEVEREIRO – Estimado, fechei negócio: terceiro andar, quatro por andar, nosso apartamento é de frente para o mar. São duas suítes e mais um quarto, área de serviço, dependência de empregada. Uma sala em L e, o melhor de tudo, uma deslumbrante sacada com churrasqueira. A vista praquele marzão é pornográfica. Sua mãe achou a sala acanhada, para os padrões dela. Mas apartamento de praia é assim mesmo e a manutenção fica mais barata. Beijo da mãe, bênção do pai.

MARÇO – Estimado, já estamos morando na praia! O clima é um paraíso aqui na terra. Espetáculo. Não chove, faz um calorzinho do bom. Mesmo assim, providenciei o que faltava: o ar condicionado da nossa suíte. Só não instalei ainda porque procuro alguém pra fazer o serviço mais em conta. Aqui tudo custa o olho da cara. De resto, tudo nos conformes. Até fizemos uma agenda para nossas atividades diárias. 8 horas: despertar. 8h30: lauto café da manhã. 9h30: caminhada de uma hora na praia para respirar o ar puro e aproveitar sol da manhã. 10h30: supermercado e tarefas externas. 11h30: sua mãe vai para a cozinha. 13h: o delicioso almoço da mamma. 14h30: soneca. 16h: café da tarde. 17h: leitura de jornais e revistas. 18h: caminhada na orla para assistir ao pôr-do-sol. 19h: novela. 20h30: lanche e telejornal. 21h: novela. 22h: jogo de carta. 23h: pra caminha que ninguém é de ferro. Que tal, filhão? Beijo da mãe, bênção do pai.

ABRIL – Estimado, já travamos amizade com os vizinhos do prédio. Temos gaúchos, paulistas, catarinas, paraguaios e argentinos. Só gente boa. Novidades: já estou até tomando chimarrão e fui convidado para participar do aperitivo diário no barzinho dos aposentados. Mudamos um pouquinho a rotina. Das 11h30 às 12h30 faço aperitivo. Tua mãe não gostou muito, mas ela precisa entender que precisamos ter uma vida social. Outra coisa: sabe a deslumbrante sacada? Mandamos envidraçar. A ventania é tanta que ela já estava ficando inútil. Tua mãe não se agradou, acha que é mais vidro pra lavar. Beijo da mãe, bênção do pai.

MAIO – Estimado, tua mãe está bem nervosa, acha que precisamos arrumar alguma coisa pra fazer. De minha parte, estou de agenda cheia. No meio da tarde, jogo bocha com a turma do barzinho dos aposentados e depois fico para a happy hour. Tua mãe também não gostou muito. Beijo da mãe, bênção do pai.

JUNHO – Acabo de comprar um pequeno barco inflável pra pescar. Só me falta companheiro de pescaria. Tua mãe não ficou muito satisfeita e agora inventou de colorir estátuas de gesso. Ela pintou algumas estátuas de Santa Edwiges e está vendendo bem, na feirinha. Um dos quartos virou oficina e o cheiro de tinta está insuportável. De resto, mudamos um pouco a rotina: estamos passando as tardes nas casas de bingo. Beijo da mãe, bênção do pai.

JULHO – Estimado, o vento Sul aqui é de lascar e ainda não consegui botar o barco inflável na água. Desde o início de junho não estamos mais caminhando na praia. Parece que a maresia enferruja os ossos, de tanto frio. Só saio de casa para o aperitivo do almoço e pra happy hour no barzinho dos aposentados. O médico mandou parar com os aperitivos. Tua mãe também, acha que estou muito barrigudo. Beijo da mãe, bênção do pai.

AGOSTO – Estimado filho, orgulha-te: eu fui eleito síndico do prédio! Por unanimidade! Tua mãe acha que o mês não foi propício para aceitar a incumbência. Ela diz que agosto atrai coisa ruim. Amanhã temos uma reunião de condomínio pra decidir a nova pintura da fachada do edifício, manutenção de dois elevadores, reforço nas fundações e reforma de todo o sistema hidráulico e elétrico. Beijo da mãe, bênção do pai.

SETEMBRO – Estimado, o feriadão da Semana da Pátria foi um inferno. Invadiram nossa praia. Bem na frente do prédio, toneladas de som e cerveja. Só conseguimos dormir depois das duas da manhã. A vizinhança diz que isso foi coisa pouca, na temporada todos dormem quando o dia amanhece. Tua mãe está nervosa e eu não estou com bons pressentimentos. Beijo da mãe, bênção do pai.

OUTUBRO – Estimado, o tempo está esquentando: nos fins de semana já não dormimos em paz, o movimento no balneário começou a subir e os preços também. Sábado faltou luz, domingo faltou água. Amanhã tem reunião de condomínio para comprar um gerador e furar um poço artesiano. Sobrou pra mim. Vendi o barco inflável que nunca usei. Tua mãe não se conforma com a minha barriga e agora não sai mais de casa, nem pra vender as estátuas de Santa Edwiges. Beijo da mãe, bênção do pai.

NOVEMBRO – Estimado, eu não sei o que está acontecendo. Os vizinhos gaúchos, catarinas e paulistas já botaram o apartamento pra alugar e vão voltar pra suas origens, em dezembro. Os argentinos e paraguaios vão ficar. Mas os portenhos não têm onde cair mortos e os paraguaios, correm boatos, são uma gente exilada por corrupção ou coisa que o valha. Tua mãe continua inconformada com a minha barriga e jogou pela janela todo o estoque de estátuas de gesso. Beijo da mãe, bênção do pai.

DEZEMBRO – Estimado filho, aqui me tens de regresso. Tua mãe venceu. Beijo da mãe, bênção do pai.

dantem@matrix.com.br

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