Quando fui presidente

Em 1981, Jaime Lerner nomeou este cartunista para presidir a Comissão Organizadora do Carnaval de Curitiba. O prefeito escolheu um palhaço para administrar o circo. Deu no que deu.

Não sei se foi o melhor Carnaval da história de Curitiba. Mas foi o maior e o mais animado, pelo menos de nossa parte. Éramos uma turma da fuzarca. Ao meu lado, o carnavalesco Mazzinha era vice-presidente da comissão. Representando a diretoria da Fundação Cultural de Curitiba, tínhamos a companhia de Sergio Mercer (presidente da FCC), Ernani Buchmann, Lúcia Camargo, Constantino Viaro e, no abre-alas, Jaime Lerner comandando a bateria. Além dos tantos amigos e colaboradores que aqui não temos espaço para a nominata, tudo gente boa da melhor qualidade.

Minha primeira medida administrativa como presidente foi um ato de nepotismo. Contratei nosso ?irmão? Luiz Antônio Solda para ilustrar o tema da festa: ?Carnaval na Raça?. Ele desenhou dezenas de pranchas, brincando com as várias etnias que colonizaram o Paraná. As ilustrações deram base à programação visual e, principalmente, constituíram a decoração da Avenida Marechal Deodoro.

Aquela passarela, com as caricaturas iluminadas, Curitiba nunca viu igual.

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Fizemos a hora, não esperamos acontecer.

Ilustração de Solda para o "Carnaval na raça", de 1981: a holandesa com a lata de leite.

Botamos o Rei Momo Reinaldo Bola (que ano seguinte foi majestade no Rio) para trabalhar já na primeira noite de janeiro, dando início a uma série de bailes pré-carnavalescos nas sociedades de bairro, às sextas e sábados. Em cada bairro, e foram quase todos, uma banda animava a festa num coreto ao ar livre, onde os sambistas ?esquentavam? os foliões.

Foram mais de uma dúzia de bailes populares, sempre entupidos de animação, com a eleição das representantes dos bairros para o concurso de rainha de Carnaval da cidade e – o melhor da festa – shows do grande, único e saudoso sambista Noite Ilustrada.

Esses bailes pré-carnavalescos, é importante lembrar, tinham, além de grande orquestra no palco, uma trilha sonora especialmente composta, orquestrada e gravada por Paulo Vítola e Marinho Galera.

A decoração dos clubes, criada pelo artista plástico Rogério Dias, consistia de lambrequins feito bandeirinhas de São João e os desenhos de Solda. Tudo sob o ilustre patrocínio da Brahma, nos bons tempos, quando a cervejaria administrava seus recursos de propaganda localmente.

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Quem sabe onde era o Teatro da Classe, na Rua 13 de Maio, talvez ainda lembre que ali existia uma desativada fábrica de tecidos – Malharia Curitiba. Naquele Carnaval, levamos a Jaime Lerner a idéia de transformar o esqueleto do abandonado prédio numa ?Fábrica de Samba?. No dia seguinte, a Prefeitura botou um batalhão para tocar a obra. Em menos de trinta dias entregamos o espaço para um rodízio de ensaios das escolas de samba, além de servir como fonte de recursos com o bar e o restaurante.

Portanto, o atual Teatro José Maria Santos nasceu em 1981, numa roda de bambas e na cadência do samba. Maé da Cuíca, Afunfa, Fernando Lamarão, Julinho da Sapolândia e Chocolate, cadê vocês?

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Outro artista plástico convocado para a folia foi o escultor Elvo Benito Damo, com uma missão impossível: se a Bahia tem ?trio elétrico?, por que a Curitiba dos imigrantes não haveria de ter uma ?carroça elétrica??

Dito e feito: Elvo se enfurnou no Centro de Criatividade e de lá saiu com duas parelhas de cavalos gigantes, da cor do cavalo branco de Napoleão, ?puxando? uma carroça montada sobre um caminhão Mercedes, com tudo em cima: uma parafernália de som, cavaco, repinique, surdo e tamborim, que abriu os desfiles das escolas de samba, na avenida decorada com os calungas de Solda.

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O escritor Ernani Buchmann tem lá suas razões para reivindicar que se extermine o mirrado Carnaval de Curitiba por falta de quórum.

Entretanto, há 25 anos ele mesmo foi testemunha ocular da história: nós fizemos a nossa parte.


Os desenhos de Solda na decoração de Carnaval de 1981, criada pelo
arquiteto Fernando Popp. As fotos são de Alberto Viana, o Baiano.

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