Clube Atlético paranaense, os gaúchos conheceram seu valor e sentiram que a camisa rubro-negra só se veste por amor. Em Porto Alegre, se o Furacão não fez nevar, fez chover rubro-negro.
Com os meninos, eu vi: estávamos em Nova Trento, Santa Catarina, postos em ligeiro sossego, quando ocorreu a idéia de sugerir ao meu filho Pedro um modesto prêmio por ter passado no vestibular. Até o guri se assustou com o ?presente?: assim, em cima do laço, tchê, viajar mais de 6 horas de carro para testemunhar a primeira Libertadores da América decidida entre brasileiros, com os gaúchos pegando carona na história e o Atlético Paranaense protagonista do espetáculo. Esse meu pai é maluco! (o que de fato é), deve ter pensado o novo calouro de Publicidade e Propaganda. Tão maluco quanto os milhares de paranaenses que atravessaram trezentos quilômetros do calvário que é a BR-101, retornando molhados, com frio e com a certeza de que o sonho não acabou.
Nas vésperas, a tenebrosa rodovia era uma passarela rubro-negra, os paradouros pontos de confraternização e o minuano soprava francamente em favor do Furacão: dirigentes do Atlético fizeram um exemplar trabalho de marketing, divulgando nas rádios uma chamada lembrando velhas diferenças entre o Sul e o centro do país, pedindo apoio dos gaúchos. A campanha valeu: no hotel, do recepcionista ao barman, todos estampavam um sorriso rubro-negro. Já os minoritários paulistas pareciam lembrar da Revolução de 30 e tratavam de tirar seus cavalinhos da garoa, que se adivinhava uma chuva rubro-negra.
– Ú-ú-ú… paulista pau no c(#)!!! – assim a bola começou a rolar no Beira-Rio, para desespero dos cambistas que entregavam as sobras de ingressos pela metade do preço. Azar o deles, sorte do Atlético que Jancarlos avançou pela direita e cruzou na cabeça do centroavante Aluísio: 1 a 0. Delírio paranaense no Beira-Rio.
– Eu já tinha simpatia pelo Furacão, mas essa torcida é trilegal, tchê! – completava um gremista, embaixo da minúscula marquise das arquibancadas inferiores, protegidos que estávamos da chuva gelada que caía feito alfinete.
– Ei, coxa!!! Vai tomar no c(#)!!! – O Coritiba não deixou de comparecer. Como também não deixou de comparecer o ?fumacê?, que fazia lembrar uma travessa de Amsterdã, onde o consumo da maconha é amplo, geral e irrestrito. Uma coisa puxa a outra e, à nossa direita, os mais exaltados arrombaram uma grade de ferro e as torcidas foram para a porrada. Baixas de um lado e de outro, até para uma garota rubro-negra, que foi transportada em ambulância para o hospital. Sai a infantaria, entra a artilharia: uma bomba de gás lacrimogêneo explode em nossas cercanias: correria, pânico, olhos ardendo. Para agravar o caos, a chuva fria e a cerveja quente. Um horror.
Entre um entrevero e outro, o segundo gol do Atlético. A bola espalmada pelo goleiro Diego bateu na cabeça do zagueiro Durval e calou a torcida atleticana, que daí pra frente, com a chuva e o frio, só pegava no tranco.
Placar final, entre feridos, intoxicados e constipados: o Beira-Rio é um gigante frio e apalermado, tão inseguro quanto qualquer estádio de segunda divisão. É maior, mas não é melhor do que a Baixada, onde o menos é mais e a Arena mais segura.
Se no primeiro tempo deu Atlético, no segundo deu São Paulo, no terceiro tempo deu o Restaurante Barranco, onde cartolas, técnicos, atletas, e a imprensa esportiva se encontram para os arremates finais das jornadas esportivas em campos gaúchos. Naquela noite, o vermelho e preto transformou o Barranco numa versão revista e ampliada do nosso Bar Palácio dos velhos tempos.
Na saída do restaurante, onde Luiz Augusto Xavier e Christian Toledo têm mesa de pista, ainda chovia alfinete. Mas na próxima quinta-feira os paulistas que aguardem o Furacão: só não vai chover canivete, porque a camisa paranaense é de paz.