Assim, em pleno julho, bastam três dias de sol, céu de brigadeiro e o retorno do sobretudo ao cabide, e a gente pergunta:
– Acabou o inverno?
Segundo o calendário aí atrás da porta, o inverno termina oficialmente no dia 21 de setembro. Menos em Curitiba. Aqui, calendário tem serventia para lembrar o santo e as efemérides do dia. Hoje, por exemplo, é Dia das Avós, pode conferir. E dia de São Joaquim e Sant?Ana, pais de Nossa Senhora.
Verdade verdadeira, é que o fim do inverno curitibano só é sacramentado no dia em que os ipês da Catedral Metropolitana florescem, quando as praças de Curitiba amanhecem amarelas em flor. Aí, sim! – acabou o inverno, seja julho, agosto ou começo de setembro. E revogam-se previsões climáticas em contrário.
Mas há quem duvide. Os neocuritibanos, por exemplo. Para essas aves de arribação, temos outros sintomas – além da flor do ipê – que atestam o fim precoce do inverno curitibano.
O teste do vampiro. Se algum contemplado cruzar com Dalton Trevisan, nas imediações do Teatro Guaíra, sem o velho chapéu de polaco – aquele com abas cobrindo os ouvidos -, pode virar a folha do calendário: acabou o inverno!
O teste cromático. O céu de Curitiba também denuncia quando o frio mudou-se de mala, cuia e casacão. Nesse caso, é preciso confrontar o azul que está lá fora, com o azul do céu de uma tela do falecido pintor Wilson de Andrade e Silva, o Espigão. O azul do nosso inverno é raso. O azul do Espigão é quase profundo, com água batendo um pouco acima da cintura, digamos. Azul assim, acabou o inverno!
O teste do sorvete. Curitibano de média quilometragem também sabe que o melhor sorvete da cidade é o do Gaúcho, na praça do Cemitério Municipal. Também conhecida como praça do skate. Praça cheia, todo mundo lambendo delícias, acabou o inverno!
As mocinhas da cidade. No inverno, elas não dançam tão bem. Mas quando elas desfilam no shopping com vestido de alcinha e com o topete resplandecendo, pode tirar pra dançar. Não é a alcinha, é o topete que decreta o fim do inverno!
O teste do avião. Partindo alhures, com destino a Curitiba, e o vôo chega no horário, sem retorno ao local de origem por falta de teto no aeroporto Afonso Pena, milagre! Acabou o inverno!
Teste da pizza. No inverno, curitibano pede pizza em casa. Com gasosão de gengibirra, é a tradição. Mas se num domingo à noite o restaurante Bavária, quase vazio, de repente recebe um batalhão envergando bermuda, camiseta e chinelão, é Curitiba voltando de Guaratuba, Caiobá e Matinhos. É o fim do inverno!
Teatro do Paiol. Nosso velho paiol de pólvora, diz a lenda, só não é mais frio que o vento encanado na esquina da Rua das Flores com Barão do Rio Branco. Mesmo com um moderno sistema de calefação, há quem não arrisque uma constipação. Entretanto, na noite de hoje – 20 horas – Luís Fernando Verissimo comemora no Teatro Paiol, sete anos de andanças com sua banda Jazz 6. Com Veríssimo embalando Curitiba, a intuição não falha:
– acabou o inverno!
Até domingo, de olho no ipê amarelo.