O brasileiro gosta de levar vantagem em tudo. E o jeitinho da nação não será outro neste referendo. Pelo sim, pelo não, só agora o debate está começando a ficar animado. Estamos vendo civilizadas trocas de idéias e também furiosas trocas de balas.
Pesando prós e contras, no próximo dia 23 iremos às urnas com uma pergunta que não quer calar a ?lei de Gérson?: sim ou não, quais as vantagens de um e de outro? Possuir uma arma tem lá suas vantagens, disparou o governador Roberto Requião, que saiu da trincheira para entrar de peito aberto nesse tiroteio. A maioria dos políticos quer fazer o papel do mocinho que se esconde atrás do toco.
Cautela, canja de galinha e distância de uma arma de fogo não fazem mal a ninguém. Basta escutar os argumentos de quem já teve um parente ou amigo fuzilado por uma bala perdida, para se sensibilizar pelo desarmamento. Fica dispensado o discurso previsível dos atores globais de momentoso sucesso.
No caixa do supermercado, quatro pacientes senhoras aguardavam com os carrinhos abarrotados, quando um camarada fura a fila, impaciente, com uma pequena cesta, com pequenas compras: uma cerveja, uma laranja, uma pêra, um pé de alface, um tomate, um pão e um bife.
Uma das senhoras espera o afobado pagar a conta e então pergunta:
– O senhor é solteiro!
– Como é que a senhora adivinhou?
– Pela sua má educação. O senhor é solteiro porque nenhuma mulher casaria com um sujeito tão grosso e estúpido.
Eis aí uma das vantagens do desarmamento. Se aquele ?cavalheiro? portasse uma arma, a história não teria este desfecho exemplar.
Até aquela moça que está na capa da Playboy – Camilla Amaral, assessora de imprensa da senadora Ideli Salvatti – sabe que o senador Jorge Bornhausen quer ver o PT morto. Pior que isso, o senador jurou de morte os petistas: ?É preciso acabar com essa raça?.
Sim, se assim for o desejo dos eleitores, o desarmamento do Bornhausen chega em boa hora.
Por outro lado, têm situações em que uma arma faz uma tremenda falta. Quando nos fazem perguntas cretinas, por exemplo. Não fossem respostas bem-humoradas, os índices de criminalidade dobrariam. No restaurante, o casal senta-se à mesa e o garçom pergunta:
– É pra dois?
– Não. Eu vou comer e ela só vai ficar assistindo.
No mesmo restaurante, os colegas de trabalho vão à mesa para comemorar qualquer coisa e sempre tem o cretino que merece levar um tiro:
– Quem senta na ponta paga a conta!
No trabalho, tem dias que dá vontade de dar um tiro no chefe. Ou não? Especialmente quando alguém volta de férias e o gerente pergunta:
– Voltou de férias?
Outra situação, muito comum com os repórteres de televisão. A velhinha subindo a escadaria da igreja de joelhos é interrompida nas suas orações:
A senhora está pagando promessa?
– Não! – responde a velhinha – É que eu sou muito alta, então eu ando assim pra não chamar atenção.
Ainda na tevê, muitos repórteres escapam com vida porque estão protegidos pela liberdade de falar mesmices.
Sinceramente, dá vontade de dar um tiro na televisão quando o locutor ?dispara? frases como estas: ?Na verdade?, ?A nível de?, ?Adrenalina pura?, Por enquanto?, ?Um belo jogo de futebol?, ?Segue ganhando?, ?Vítima fatal?.
Vítima fatal é ouvido do telespectador. Tolerância zero, são momentos como este que justificavam plenamente a campanha pelo desarmamento amplo, geral e irrestrito. Inclusive o desarmamento do espírito, quando você é convidado para uma festa, bate na porta e a anfitriã pergunta, cheia de dentes:
– Oi, você veio?
A favor do sim, tenho o depoimento de uma senhora que, por motivos de ordem conjugal, não é de bom tom citar o nome. Ela foi muito sincera na argumentação contra o comércio legal de armas e munições.
– Sou pelo desarmamento. Quero me livrar daquele canhão que é o meu marido.