Proh pudor!

O escritor Lima Barreto (1881/ 1922), era um mulato filho de escravos que, se tivesse nascido mais para o final do século, poderia ter sido jogador de futebol. Longe disso, o jornalista e funcionário público tornou-se um dos nossos maiores escritores, assim reconhecido depois de morrer alcoólatra e louco aos 41 anos de idade.

Contista do cotidiano carioca, Lima Barreto (no retrato) tem um conto sobre futebol (o que era uma raridade) que talvez explique a nossa autossuficiência em relação ao rude esporte bretão: quando os adversários perdem, são justamente derrotados; quando perdemos, o resultado é vergonhoso. Isto porque somos doutores em “football”.

“Na Avenida”, chama-se o conto de Lima Barreto:

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 – Quem é aquele sujeito alto, tão solene, que fala naquele grupo com tanta gravidade?

– É o doutor Paniatercski.

– É doutor em quê? Em medicina? Naturalmente, é um grande cirurgião!

– Não é!

– Então é um clínico conceituado.

– Não é!

– Estou disposto a crer que é um especialista afamado em olhos, garganta, nariz e ouvido.

– Não é!

– Se não é isto, é um professor admirado pelos seus discípulos. Com certeza, ele professa zoologia ou botânica – não é?

– Qual o quê! Nunca lhe passou pela cabeça ensinar ciências naturais.

– Se não é isso e o mais que já perguntei, certamente ele abandonou a medicina e arredores e meteu-se pela literatura. É talvez um prosador nefelibata, um símile – clássico – não será isso?

– Qual o quê! Estou convencido que não será capaz de adivinhar onde se baseia a sua celebridade e por que já tem ido à Europa, várias vezes, à custa do governo. Adivinha se é capaz!

– Certamente que não; pois não consigo atinar que um médico célebre possa sê-lo, fora da medicina e adjacência; e, quando não a exerce fora das letras. Então, dize lá de uma vez: donde vem o ar de autoridade com que fala, aquela suficiência?

– É sabichão de football. Eis aí!

Proh pudor!

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Do latim, “proh pudor” significa “que vergonha!”. “Proh pudor” também era divisa de Guilherme de Orange, o príncipe daquela seleção de camisa laranja que nos chutou como um bagaço.  

Com tanta suficiência, quando iremos reconhecer que, do jeito que estamos jogando e do tanto que os nossos dirigentes se locupletam com os negócios do futebol, já não é mais nenhuma vergonha levar uma goleada de ninguém! Muito menos da Alemanha, um time merecidamente campeão do mundo.

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