Último cabalista do Brasil meridional, Horácio Braun prevê o futuro com o mesmo método e inspiração de um antigo cartomante e mestre cervejeiro alemão que viveu no século 16, em Heidelberg: ele joga 12 tampinhas de cerveja (da mesma forma como se jogam búzios) e, depois de beber todas as 12 garrafas, revela o que será do nosso destino.
Como fazemos anualmente no mês de dezembro, fomos encontrá-lo em torno de uma bacia de camarões ?abissais?, na pequena enseada da ?Caixa d?Aço?, em Porto Belo, paraíso da orla catarinense. A consulta cabalística é sempre realizada no bar flutuante ?Balanço do Mar?, ancorado em meio a uma desfrutável criação de ostras e mariscos.
Pergunta – No ano passado o senhor previu para janeiro um misterioso aquecimento solar jamais registrado – o Efeito Piauí – que iria derreter os três planaltos paranaenses, provocando uma fuga em massa da população para Guaratuba, Caiobá e Matinhos.
Horácio Braun – Foi o que aconteceu. Porém, só o proletariado não conseguiu fugir para o litoral. A política econômica do governo deixou o povão sem recursos contabilizados nem mesmo para se refrescar nas cavas do Iguaçu.
P – Sua previsão era de que não iria ter Carnaval em Curitiba.
Braun – Foi o que eu disse e volto a repetir: ?Não vai ter Carnaval em Curitiba e ponto!?.
P – Segundo suas previsões, Curitiba não se livraria de um outro inferno: o trânsito da capital retornaria ao caos, com o início das aulas e da Escolinha do Professor Requião.
Braun – (abrindo uma panela de ostras ao bafo): Este início de ano será muito pior. Curitiba vai assistir a engarrafamentos jamais vistos, especialmente na Vicente Machado, em frente à sede do PMDB.
P – Junho é temporada de quadrilhas. Você previu que a Polícia Federal reservaria algumas surpresas para o Paraná.
Braun – Estava escrito nas tampinhas: deveria ocorrer uma grande apreensão de drogas no Couto Pereira, porque não seria fácil Giovani Gionédis montar um time decente para o Alto da Glória voltar à primeira divisão.
P – Vamos repetir a pergunta do ano passado; vai nevar em Curitiba no dia 17 de julho?
Braun – Só Deus sabe. Mesmo assim, nem mesmo Ele é infalível. Certa vez um cientista confessou a um amigo que estava escrevendo um diário, só para a informação de Deus. ?Você não acha que Deus sabe de tudo??, retrucou o amigo. ?Sim – respondeu o cientista – ele sabe dos fatos, mas não desta versão dos fatos!? Portanto, nada é impossível e tudo vai depender das coligações climáticas.
P – No ano passado você previu que Requião e Lula se reelegeriam no primeiro turno. Para este ano, o que as tampinhas de garrafas reservam para o governo?
Braun – Eis aí uma questão que requer inspiração dupla. Com licença, vou jogar mais 12 tampinhas de cerveja sobre a mesa e, depois de beber todas as 12 garrafas, vou tentar ouvir a voz do povo na terceira pessoa do plural do futuro do pretérito.
Pela posição das tampinhas de cerveja, e pela espessura e tonalidade da espuma no copo, o povo até estaria satisfeito com o governo. Porém, como eu disse no ano passado, o verbo governar é condicional. O povo vai julgar o governo pelo discurso pretérito: baixariam juros, fariam reformas, inaugurariam estradas, implantariam obras de infra-estrutura, realizariam as promessas? ?Deus não vota, mas vigia!? – dizia Yara Teixeira. Se a filha do Nireu Teixeira falou, até as tampinhas de garrafa hão de concordar.
De resto, só tenho uma certeza, e espero que a sorte das tampinhas não nos falhe: no final de 2007 estaremos aqui reunidos outra vez, jogando 12 tampinhas de cerveja (da mesma forma como se joga búzios) para depois beber todas as 12 garrafas bem acompanhadas de camarões abissais, mariscos e ostras coisas.