Presentes de Natal

dantem151206.jpgDois anos atrás, fiz uma lista dos pequenos grandes prazeres da vida. Primeiro da lista, o pequeno grande prazer de fazer listas. Lista de convidados, lista de viagem, lista de supermercado, lista de livros, lista de discos, lista de cidades inesquecíveis, lista de restaurantes e – uma das melhores das listas – a lista de presentes de Natal.

O pequeno grande prazer não tem preço. É o pequeno grande prazer da jabuticaba no pé, subir no pé, comer a fruta no pé e dar no pé. Um peixe na ponta da linha, um banho de rio. Depois do aguaceiro, o cheiro da terra. Sol e chuva, casamento de viúva, o pequeno grande prazer do arco-íris.

O cheiro do lençol limpo e da roupa bem passada, a gola engomada, o sabor da merenda, a primeira caligrafia no caderno novinho e uma caixa de lápis de cor. O fim da tarefa e o último dia de aula.

Um novo gibi, o Pasquim nas bancas de revistas e aquela canção do Roberto. O primeiro contracheque, o primeiro dia de férias. A mala arrumada, o primeiro passaporte. O barulho do mar, o primeiro chope na praia. O pequeno grande prazer de chegar, tirar o sapato, o pequeno grande prazer da sandália e o velho calção de banho. A rede macia, o cheiro de um livro novo. O pequeno grande prazer do vento soprando na varanda.

O primeiro olhar, um beijo. Dormir abraçado com o barulho de chuva no telhado, acordar e lembrar que é feriado. O café na padaria, o pastel da feira. A velha casa pintada de novo, o quintal florido e o sabiá no telhado. Chegar em casa. Um chuveiro quentinho no inverno, uma chuveirada de verão. Um copo de água gelada.

Pequeno grande prazer é o bolo de aniversário, o chocolate da Páscoa, o sino da igreja e a primeira comunhão. A cigarra cantando é São Nicolau. A bola de futebol embrulhada para presente e a primeira bicicleta.

No Natal de 1957 – ou seria 56? – ganhei a minha primeira é única bicicleta. Dos pequenos grandes prazeres, esse foi o maior. Era uma bicicletinha Caloi que meu pai comprou em São Paulo, na loja Caloi da Rua Barão de Itapetininga.

Naquele Natal, posamos para esta foto no quintal dos nonos Luigi e Giusepina Tridapalli, em Nova Trento, Santa Catarina. Do topo ao pé da escada, a tia Maria Aparecida Tridapalli, hoje advogada em Florianópolis, o de camisa listrada era o dono da bicicleta novinha em folha, o tio Pedro Paulo Tridapalli, engenheiro civil, e meu irmão Rogério (Peninha) Mendonça, engenheiro agrônomo reeleito deputado estadual em Santa Catarina.

***

Cinqüenta anos depois, neste Natal de 2006, acabo de receber da Assembléia Legislativa do Paraná um presente para o resto da vida: Cidadão Honorário do Estado do Paraná. O projeto de lei que vai me conceder o título, de autoria dos deputados Renato Gaúcho e Edson Praczyk, foi aprovado nesta terça-feira por unanimidade.

O prazer de ser um futuro Cidadão Honorário do Estado do Paraná não tem preço, não tem tamanho. Já ganhei uma bicicleta, já plantei uma árvore, tenho dois filhos, já escrevi um livro e agora serei paranaense de papel passado. Será que mereço tanto?

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