Quem foi que disse que o Papai Noel é um velhinho analfabeto que só traz perfumes, meias, camisetas e cuecas e, livro que é bom, só se for agenda de fim de ano. Pois, neste Natal, o bom velhinho nos traz um belo presente, pelas mãos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que sancionou lei que isenta do pagamento das contribuições federais PIS/Pasep e Cofins a produção, a comercialização e a distribuição de livros.
Segundo o Ministério da Cultura, "em três anos os livros poderão ser vendidos com redução de 10% em relação aos preços atuais, e a medida vai incentivar o lançamento de novos selos editoriais e a abertura de novos pontos de venda".
Sim, é um belo presente do Papai Lula Noel, mas há controvérsias. Há quem lembre que na cesta básica também fizeram uma lipoaspiração nos impostos, mas nem por isso os preços baixaram. Há quem desconfie desta boa notícia natalina, argumentando que os distribuidores e editoras vão continuar esfolando o leitor e apresentam como prova das más intenções do mercado um livro de Paulo Coelho, por exemplo: O alquimista com capa dura, papel de primeira, você pode comprar em Londres por cerca de 22 reais, noves fora o pagamento do tradutor. O mesmo título aqui no Brasil, com capa mole e papel de terceira não sai por menos de 30 reais.
A propósito, deixa isso pra lá, vem pra cá, que o escritor Deonísio da Silva tem algo mais a nos dizer sobre livros, receitando uma dieta para o espírito, nestas festas de fim de ano.
A dieta de Deonísio
Não se pode concordar com quem, como fez Daniel Piza no O Estado de S.Paulo de domingo (19/12), não achou prosa de ficção relevante para registrar no ano de 2004. Pontificando com coluna semanal num dos maiores jornais brasileiros, que, aliás, tem prestígio internacional, não viu um dos grandes romances do ano bem pertinho dele, pois é de autoria de um colega de redação.
É O silêncio do delator, de José Nêumanne Pinto, editorialista e colunista da casa. Se não se lê nem o colega de jornal, que podem esperar os outros? A imprensa ficou parecida com a universidade, onde os cubículos dos intelectuais, semelhando as mônadas de Leibniz, não têm comunicação umas com as outras? Intelectuais de prestígio, como Wilson Martins e Affonso Romano de Sant’Anna, estão entre os que destacaram esse livro.
Dieta de leitura
Sem a pretensão de elaborar lista completa, destaco alguns pontos altos da safra de 2004 na prosa de ficção, só para não dizer que estou de bronca com os editores que se "esquecem" de livros importantes. Esses ficcionistas são craques titulares em qualquer time de prosadores. O Brasil tem cerca de 3 mil editoras e 900 pontos de vendas (ninguém sabe ao certo quantas livrarias temos, nem mesmo a Câmara Brasileira do Livro), de modo que talvez seja impossível sequer examinar a produção literária nacional para fixarmos as contribuições mais relevantes. Eis 14 prosadores da mais alta qualidade, craques da narrativa que lançaram livros inéditos em 2004. Um responsável pela seleção brasileira de literatura não poderia deixar de convocá-los.
1.O silêncio do delator, de José Nêumanne Pinto (Editora A Girafa); 2. A ira das águas, de Edla Van Steen (Editora Global); 3. Mare nostrum, de Salim Miguel (Editora Record); 4. O opositor, de Luis Fernando Veríssimo. (Objetiva); 5. Trevas no paraíso, de Luiz Fernando Emediato (Geração Editorial); 6. Concerto para paixão e desatino, de Moacir Japiassu. (Editora Francis); 7. O vôo da madrugada, de Sérgio Sant’Anna (Companhia das Letras). 8. Tróia, o romance de uma guerra, de Cláudio Moreno (Editora LPM); 9. Um homem chamado Noel, de Mário Pontes (Editora Funcet – Fundação de Cultura, Esporte e Turismo de Fortaleza); 10. Sujeito oculto, de Manoel Carlos Karam (Editora Barcarolla); 11. O homem que colecionava manhãs, de Liberato Vieira da Cunha (Editora Objetiva); 12. Contos de São Paulo, de Filippo Garozzo (Editora de Cultura); 13. Na teia do sol, de Menalton Braff; (Editora Planeta); 14. Getúlio, de Juremir Machado da Silva (Editora Record).
Até domingo, quando já estaremos na orla, a bordo de um chinelo velho.