Precisamos nos benzer!

O secretário Luiz Fernando Delazari precisa se benzer na Igreja dos Capuchinhos, orar ao beato Leopoldo Mandic e acender uma vela ao saudoso frei Miguel. São de suspense, medo e terror os últimos dias vividos nesta Muy Leal Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais.

A Igreja dos Capuchinhos fica na Avenida Manoel Ribas, no Alto das Mercês. É reconhecida pela maioria dos curitibanos como um templo de bênçãos não só para os filhos de Deus que diariamente estão sendo violentados, como também para os veículos que constam nas estatísticas da Delegacia de Furtos e Roubos. O beato Leopoldo Mandic, patrono dos capuchinhos, não há de negar uma graça especial ao nosso secretário da Segurança Pública, porque os curitibanos estão divididos em duas facções: os que receberam a graça de sobreviver nas mãos dos bandidos e os abençoados que mais dia, menos dia, terão do que se queixar ao bispo.

No final do expediente, depois de benzer a viatura, o corpo e alma com os capuchinhos, Luiz Fernando Delazari bem pode andar uma quadra e tomar um aperitivo no Bar Botafogo, tradicional ponto de encontro das Mercês, pouco antes do Restaurante Tortuga e da Mercearia Riograndense. A placa que identifica o bar é pouco maior que uma caixa de fósforos, mas a sua freguesia é grande, com muitas histórias para contar. Nos últimos tempos, é triste contar, as histórias de violência urbana predominam.

João Zagonel, empresário da construção civil, passou um domingo de cão. Enquanto assistia ao Coritiba vencer o Palmeiras, com desgosto atleticano, assaltantes invadiram os três apartamentos abaixo de sua cobertura, no Batel, e devastaram as residências de seus familiares. Para a torcida palmeirense, o juiz era suspeito, mas nem mesmo no intervalo da partida Zagonel ouviu os ladrões que agiam nos pavimentos abaixo.

Joãozinho Bernardi, proprietário de um concorrido restaurante no Boqueirão, foi ao banco retirar dinheiro para o pagamento de seu pessoal. Quando retornou ao negócio, foi imobilizado pela quadrilha que o seguia desde a agência bancária. Levaram os salários, o que tinha no caixa e nos bolsos dos clientes. O restaurante de Joãozinho serve uma comida caseira deliciosa, receitas de quando Curitiba ia à mesa de portas e janelas abertas. Agora o assalto já consta do cardápio.

Irineu Mazzarotto, o Queixinho, é o patriarca atrás do balcão do Bar Botafogo, há 56 anos no mesmo endereço, com uma lotérica ao lado: a Loteria do Queixinho. Há pouco tempo vendeu a lotérica porque não conseguia mais atravessar a rua para depositar o dinheiro na agência da Caixa Econômica quase em frente. Foi roubado inúmeras vezes e, na última, espancado e pisoteado na calçada, enquanto lhe arrancavam das mãos o movimento do dia.

Luiz Fernando Delazari vai se divertir com as histórias do Queixinho. Porque, das tantas violências sofridas, ele guarda também as hilárias. Certa vez assaltaram não só a lotérica, como também o bar, que se comunica pela porta dos fundos. Começo de noite, todos os clientes e funcionários foram trancados num único banheiro. Dezesseis ou mais pessoas, umas sobre as outras e Queixinho estendido no chão, com um pé sobre o seu pescoço. Só um freguês não foi notado.

No Bar Botafogo é prática comum o jogo de xadrez entre a freguesia. O espanhol Alberto Sanchez, já falecido, era um deles. Quando os meliantes entraram, Sanchez tinha acabado de receber um xeque-mate e ali restou compenetrado, numa mesa de canto, enquanto se desenvolvia a ação do crime. Os ladrões se escafederam, e Sanchez ali, tão absorvido que nem piscava. No silêncio tumular, o espanhol compenetrado se levantou e foi ao banheiro, encontrando-o trancado. Bateu na porta, silêncio. Bateu outra vez, silêncio. Então perguntou:

– Tem gente?

A balbúrdia que se deu a seguir, só o Queixinho para contar. Quanto ao nosso querido Alberto Sanchez, não viu o filme, não viu os bandidos. Assim de repente, assustado, o espanhol desaprendeu o português:

– Yo no he escuchado nada! Yo no he visto nadie!

***

Precisamos nos benzer nos capuchinhos, secretário Luiz Fernando Delazari.

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