A fila na Delegacia Marítima, órgão do Departamento da Polícia Federal encarregado da expedição e renovação de passaportes, é a imagem de um país desanimado. São os brasileiros providenciando a papelada, preparando suas pobres malas para pular fora dessa nau de rumo incerto.
Na Rua Dr. Faivre, entre as avenidas 7 de Setembro e Visconde de Guarapuava, a fila de passaportes da Polícia Federal é quase réplica da fila do INSS. Com uma diferença: esta é o caminho da aposentadoria, a outra é o caminho do exílio. Por dia, a Delegacia Marítima fornece trezentos novos passaportes, que saem como se fossem pão quente na padaria: mediante uma senha e sem maiores burocracias, o freguês sai na mesma manhã com o caderninho verde na mão e uma nova fronteira na cabeça. O que prova que a Polícia Federal é um setor público competente: tanto para mandar hordas de meliantes para trás das grades, quanto para enviar o cidadão para um futuro melhor e mais plausível. Porque este presente que estamos vivendo é uma novela policial de ficção, com inacreditáveis novos capítulos diários.
Na Delegacia Marítima, a nave enfileira uma tripulação de brasileiros, de profissão esperança: tem a galega alta que vai desfilar em Nova York, tem o italianinho parrudo que vai colher uvas no norte da Itália, tem o careca que vai conhecer os parentes em Portugal para nunca mais voltar, tem o garoto descolado que vai lavar pratos em Londres, tem o Rachid que vai morar com os ?brimos? no Líbano, tem o japonês de óculos com um emprego garantido em Tóquio e tem o petista de meia idade que está na fila não sabe bem por quê. Que os une, uma só certeza: esperam botar o pé no avião com uma malinha de roupas e voltar com um malão de dinheiro, maior e tão bem fornido quanto as malas que têm cruzado os céus do Brasil.
Se alguém imagina que a fila do passaporte é um enfadonho passar de horas, ledo engano, é a maior diversão.
– Além da papelada, é verdade que agora estão revistando a roupa íntima? – pergunta o japonês de óculos com emprego garantido em Tóquio.
– Revistando, não estão -responde o garoto descolado que vai lavar pratos em Londres -, mas estão pedindo para preencher um formulário: qual a cor da cueca; se é lisa, de bolinhas ou com estrelinhas; se usa cueca de braguilha ou fechada; se é cueca do tipo samba-canção; se a cueca é com ou sem costura; se a cueca está lavada. Isso é importante.
– Ninguém merece! – diz a galega alta que vai desfilar em Nova York. – Imagina… na minha calcinha não cabe nem uma moedinha de um cent de dólar! E para os devidos fins já vou declarando: longe de mim as malas. Doravante, queridos, só viajo com a minha frasqueira.
– Sabe por que Napoleão Bonaparte sempre usava uma camisa vermelha? – Rachid, que vai morar com os ?brimos? no Líbano, pergunta e responde: Se ele fosse ferido, o vermelho da camisa se confundia com sangue e assim o comandante mantinha o moral da tropa.
– Então é por isso que em Brasília os deputados só usam cueca marrom! – responde a galega alta, que não é uma loura burra.
– Aposto meia cueca de euros: em seis meses, antes que eu volte pro Brasil, os cuecões do ministério do Lula já serão outros – desafia o italianinho parrudo que vai colher uvas no norte da Itália. – Por exemplo, o da cueca, aquele que ganhou milhões vendendo frutas e legumes, vai pro Ministério da Agricultura. O deputado-pastor da Igreja Universal vai pro Banco Central, Roberto Jefferson para o Ministério da Justiça e a secretária Fernanda Karina Somaggio será a toda-poderosa da Casa Civil.
– E pro Marcos Valério, nada?
– Pra quem mexe com bilhões, a Casa da Moeda. Nada mais, nada menos.
Com a senha número 297 na mão, o petista de meia idade pergunta ao careca que vai conhecer os parentes em Portugal para nunca mais voltar:
– Qual o tempo de validade de um novo passaporte?
– Cinco anos, companheiro.
– De bom tamanho: se um tucano voltar pro galho, no dia 3 de outubro de 2006 estarei com o passaporte na mão. E o Zé Dirceu que apague a luz do aeroporto.