Para o indivíduo, toda cidade é um exagero. A cidade ideal é aquela onde se desenha o próprio mapa na palma da mão. Na cartografia humana, o que nos guia na cidade é o "mapa afetivo" de uma cidade diversa contida nela mesma.

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Poty Lazzarotto talvez seja o artista mais visível em Curitiba. Bem mais que o escritor Dalton Trevisan, que pode ser observado diariamente, em carne e osso, indo e vindo do Alto da Rua XV, à procura de um ponto onde se encontre um conto.

Napoléon Potyguara Lazzarotto já não vive, mas se faz presente de norte a sul, de leste a oeste do mapa de Curitiba. No aeroporto e no parque, na praça e na parede, no monumento à história.

Faz sentido quando os forasteiros de olhos desacostumados dizem que Curitiba é a "Potylândia".

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Quando Poty era vivo de carne e osso, limpava a mostarda do bigode no Bar Triângulo, na Rua das Flores. Depois do "pernil com verde" e antes de esvaziar a regulamentar tulipa de chope. No "mapa afetivo" de Poty, todas as ruas davam mão para o "pernil com verde", e o cartunista Solda o saudava vez ou outra com essa frase que Lazzarotto nunca chegou a ouvir:

– Mostarda, mas não falha!

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O mapa-múndi de Poty era bem reduzido: Paris, Rio de Janeiro e Curitiba, cujos mapas ele traçava na palma da mão. O pintor e desenhista foi quem inventou o que podemos chamar de "mapa afetivo" de uma cidade. O perímetro do afeto.

Em meados da década de oitenta, quando morava no Rio de Janeiro, um amigo carioca vinha conhecer Curitiba em viagem de turismo e pediu ao Potyguara os rumos do bom e do melhor da cidade, mais as coordenadas para conhecer as obras do artista espalhadas nesta "Potylândia".

Potyguara deixou o amigo maravilhado: o ilustrador de Guimarães Rosa desenhou o seu próprio e singular mapa de Curitiba em papel e nanquim, com avenidas, ruas, bairros, esquinas ilustradas. Os pontos com desenhos a bico de pena dos bares e restaurantes, o Mercado Municipal, o "pernil com verde", museus e livrarias, o Beco do Mijo, nos fundos da Catedral, no roteiro para conhecer Curitiba a pé.

O que mais encantava no ?mapa afetivo" de Poty era a localização exata e detalhada em ilustrações de onde encontrar suas obras na cidade, começando pelo Aeroporto Afonso Pena, indo a museus e murais ao ar livre.

Na cartografia de Poty, Curitiba se fez um exagero. A cidade precisa recuperar a que tínhamos na palma da mão.

Por onde andará aquele "mapa afetivo", que podia ter sido impresso e distribuído para os milhares de participantes dessas conferências mundiais sobre biossegurança e diversidade.

DiverCidade está em cada um. Das diversas cidades dentro do mesmo perímetro urbano de Curitiba, os milhares de visitantes iriam conhecer a "Potylândia", uma cidade diversa do imaginário do artista.

O jornalista Eduardo Fenianos acaba de lançar nesse COP/MOP um novo mapa turístico de Curitiba, em papel reciclado, mas está nos devendo outro, e a Prefeitura também: o mapa da "Potylândia", um redesenho revisto e ampliado do "mapa afetivo" de Napoleón Potyguara Lazzarotto.

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Curitiba e Potylândia, duas cidades nascidas uma para a outra. A Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais faz aniversário em 29 de março, Napoléon Potyguara Lazzarotto também. Teremos fogos e festas, com convidados especiais da ONU e a platéia do Festival de Teatro de Curitiba.

Se não se faz tarde, a Fundação Cultural de Curitiba poderia criar a "Linha Potylândia", que partiria do Museu Oscar Niemeyer, passaria pelo Jardim Poty Lazzarotto, no Parque Tanguá, faria escalas no acervo ao ar livre, para enfim experimentar o chope e o "pernil com verde" na Rua das Flores.

Um "PotyTour", a "Linha Potylândia" seria servida de ônibus ilustrados e monitores treinados para percorrer o itinerário contando da vida venturosa desse muralista, desenhista, ilustrador e gravador que nasceu (1924) e morreu (1998) em Curitiba.