Até os postes sabem que a campanha eleitoral ainda não pegou. Onipresentes, só os postes conhecem as almas das ruas e sabem o que se murmura nas esquinas. Do alto, eles observam quem entra e quem sai, quem vai e quem volta, quem sobe e quem cai, quem conspira e quem trai. Unidos por tantos fios, tudo ouvem, tudo vêem, tudo sabem. Até o poste defronte ao Bar dos Passarinhos sabe que, na região do Bigorrilho e demais bairros de Curitiba, o sonho acabou, e agora só tem pão com banha. Depois que Lula perdeu o medo de ser feliz, surpreendendo a esquerda e a direita, nada será como antes. O distinto público cansou de esperar o espetáculo do crescimento e aguarda novas atrações: o equilibrista cair do cavalo, o trapezista se espatifar no chão ou – Deus nos livre – o circo pegar fogo.
Na sexta-feira passada, depois de um curto mas tenebroso inverno, voltamos a conversar com o poste em frente ao Bar dos Passarinhos. Ele nos concedeu uma iluminada entrevista, enquanto sustentava energia elétrica para a Igreja dos Passarinhos, no Bigorrilho, região também conhecida como Bragalândia.
PERGUNTA – O senhor tem visto a dona Nice Braga?
POSTE – Como de costume, antes e depois das missas do padre Gabriel Figura, tenho iluminado os passos desta simpática e elegante senhora. Ela e o Nelson Comel, meus fregueses de luz, desde os tempos do saudoso padre João. Jaime Lerner anda bem sumido, depois que o Roberto Requião tomou conta do pedaço e passou a fazer aperitivos regulares aqui no Bar dos Passarinhos. Lamentável, porque uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, como repete o sábio Zé Genoino.
P – Analistas políticos estão surpreendidos com a alienação do eleitorado. Até o governador Roberto Requião está surpreso. Nos comícios, ele diz, só encontra gatos pingados.
POSTE – Impressionante. Curitiba está infestada de gatos pingados. Nunca se viu tantos gatos pingados rondando a cidade. Só na minha jurisdição contei centenas deles na madrugada de ontem, pregando cartazes. De fio em fio, a rede de comunicação entre nós postes é muito grande. O último comício do candidato Vanhoni, abrilhantado pela dupla Wil-liam e Renan, foi um tremendo sucesso, a nível de gatos pingados. Estavam presentes dezenas de gatos pingados. O governador Roberto Requião testemunhou: só tinha gato pingado. E um gato pingado conhecido do outro, como é normal quando se reúnem os gatos pingados.
P – O mesmo acontece nos comícios dos outros candidatos?
POSTE – Em outros comícios, nem os gatos pingados comparecem. Os postes bem sabem: dos felinos, a pior raça é a dos gatos pingados. A dupla William e Renan é requisito básico para os gatos pingados. Sem eles, a raça não marca presença nem mesmo a troco de cesta básica.
P – Os marqueteiros não foram capazes de prever o povo assim tão alhures. Por quê?
POSTE – Porque não me perguntaram. Os postes são fixos junto à luz; os marqueteiros agem na zona de sombra. Marqueteiros são bruxos que só acreditam em bruxas. Não acreditam em postes. Bruxas, não é provável que existam; mas que postes existem, existem!
P – Qual a explicação para essa campanha assim tão sonífera?
POSTE – Muito proselitismo para boi dormir. Quando começa o programa eleitoral na tevê, a manada desliga a televisão e vai ao leito. Não sem antes trancar portas e janelas, porque a questão da segurança é o único tema eleitoral que tira o sono da boiada.
P – Quem vai para o segundo turno?
POSTE – O futuro ao subterrâneo pertence. Homens e postes, hoje estamos verticais, amanhã horizontais; quando todos os condutores se estenderão abaixo da superfície. Eu levo a luz; não levo à luz. Por enquanto, todos os gatos pingados são pardos.
Até quarta-feira; neste mesmo canal.