Por eles, pagamos todos

Não foi por falta de aviso de nossa parte e vale o que foi escrito na semana passada, quando alertamos aos de pouca fé: não somente alguns gramas a mais de Ronaldo Nazário podem fazer valer a vitória brasileira contra os franceses. Nossa Senhora do Rocio pode decidir tanto quanto a presença de Robinho em campo.

Os fiéis de Paranaguá bem conhecem os poderes da Senhora do Rocio e o quanto ela podia ter feito para nos livrar dos humilhantes dribles do bravo Zidani. A Virgem do Rocio vem nos protegendo da França bem antes do inglês Charles Müller trazer o rude esporte bretão para estes alegres trópicos.

Paranaguá conhece da história. Em 1718, um pirata francês invadiu as águas de Paranaguá e foi escorraçado por obra e graça de Nossa Senhora do Rocio. O episódio consta dos escritos do cronista Antônio Vieira dos Santos: ?Em 1718 o temerário pirata francês Bolorôt teve a imprudência de fazer seu ingresso rapinoso, atrás do galeão espanhol que vinha do Chile, carregado de prata, invadindo essas águas do terreno onde a Protetora da Cidade dominava, causando seu aparecimento imprevisto, na ponta da Ilha da Cotinga, grande susto e terror aos parnanguaras indefesos. Eles prontamente recorreram à sua padroeira e, cheios de confiança e devoção, a conduziram em triunfo, qual valorosa Judite, ao lugar da ribanceira; e prontamente, em defesa de seus filhos, foi castigada tal ousadia, por meio de um repentino furacão furioso que fez levar o navio desses piratas contra um cachopo de rochedo que tem à flor d?água, na Ilha da Cotinga, onde foi submergido nos profundos abismos, com o chefe pirata e seus cúmplices. Vitória que os parnanguaras alcançaram pela intercessão de Maria no dia 9 de março do mesmo ano de 1718, ficando desde então eternizado o nome daquele rochedo, como memória perpétua de tal acontecimento?.

Passada a ressaca e o gosto acre da feijoada, na manhã de domingo este servo que aqui escreve desceu a Serrado Mar em direção a Paranaguá. Foi, humildemente, ouvir da própria Nossa Senhora do Rocio as causas da punição.

Ajoelhado no Santuário, perante a luz da verdade, o humilde servo ergueu os olhos e ousou perguntar:

– Salve, Nossa Senhora do Rocio: por que não ouvistes nossas preces?

Do altar iluminado, veio a voz da padroeira do Paraná:

– Filho, diga ao nosso sofrido povo que foram sete os pecados capitais, e por eles pagamos todos.

A gula de Ronaldo Nazário.

A soberba do técnico e a vaidade de nossos craques.

A luxúria dos dirigentes da CBF levou hordas de cartolas para Alemanha e, na mordomia dos hotéis de luxo, lá se esbaldaram na lascívia do poder, fazendo ouvidos moucos aos apelos da incauta torcida.

A avareza e o sórdido apego ao vil metal de nossos rapazes resultaram na falta de generosidade com seus companheiros, na mesquinhez com que nos privaram de seus reconhecidos talentos.

A preguiça, mãe de todos os vícios, estava estampada na face de Roberto Carlos e contaminou todos aqueles que o cercavam. Com exceção, diga-se, do valente quadrado mágico da defesa.

A cobiça de alcançar tantas pretensões pessoais: Ronaldo, o maior goleador da história das Copas; Lúcio, o zagueiro que ficou mais tempo sem cometer faltas; Cafu, que nem Deus sabe quantos outros recordes deve ter quebrado.

A ira do povo brasileiro. Entretanto, dizia São Tomás de Aquino, ?a força da ira é a autêntica força de defesa e de resistência da alma?, e por este pecado ninguém há de ser condenado.

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