Bem lembrou o jornalista Ricardo Setti, na sua coluna eletrônica do Observatório da Imprensa (www.observatoriodaimprensa.com.br ), site editado por Alberto Dines:
“A expressão coloquial “por conta” avança de forma inarredável entre repórteres, copidesques e mesmo articulistas e colunistas de texto apurado, ocupando o lugar de uma série de sucedâneos mais elegantes, e muito mais precisos, como “em conseqüência de”, “em razão de”, “em virtude de” e “por causa de”. O professor Pasquale Cipro Neto deve andar por conta.”
Tem essa e tem outras: na televisão brasileira, pode observar, tudo é comparado a um campo de futebol. O agricultor é o maior produtor mundial de abobrinhas? Na tevê, o agricultor planta “quinhentos campos de futebol”. Qual o tamanho do Parque Nacional do Iguaçu? “Trocentos mil campos de futebol.” É tudo muito simples, tudo mede um campo de futebol
Em Curitiba, desde terça-feira o tempo está ensolarado? Não, minha senhora: desde terça-feira, o tempo “segue” ensolarado.
Depois do acordo com o FMI, o dólar continua caindo? Não, meu senhor: o dólar “segue” caindo. E Guga, continua perdendo? Pois sim, mas na tevê ele “segue” perdendo.
Quando Ciro Gomes declarou que “ACM é mais sujo que pau de galinheiro”, na verdade ele não declarou. ACM é mais sujo que pau de galinheiro “disparou” Ciro Gomes. Ninguém mais fala, “dispara”.
A famigerada expressão “a nível de” está mais ou menos em baixa. Até caiu de moda, junto com “faz parte” e “com certeza” .
Até ontem, era “chique no úrtimo”. Agora, chique mesmo é a tal da “adrenalina pura”. Só falta a Ambev lançar no mercado “adrenalina pura” sabor laranja.
Bem a propósito, é coisa velha na internet uma lista de expressões típicas para colar no mural da escola ou do trabalho:
– Manter o mesmo time. (Pode-se manter outro time?)
– Labaredas de fogo. (Labaredas de água?)
– Pequenos detalhes. (Existem grandes detalhes, mas estes só Roberto Carlos conhece.)
– Sorriso nos lábios. (Ou sorriso no umbigo?)
– Goteira no teto. (No chão já seria possível?)
– Viúva do falecido. (Até prova em contrário, não pode haver viúva se não houver um falecido.)
Do palavrório político, as expressões campeãs:
– Monopólio exclusivo. (Meu caro deputado, se é monopólio, já é total e exclusivo.)
– Planos e projetos para o futuro. (Você conhece alguém que faz planos para o passado? Só se for a plataforma de governo do Antônio Carlos Magalhães.)
– Criar novos empregos. (Só se for para criar os velhos empregos no setor de nepotismo da vida pública nacional.)
– Habitat natural. (Dá pra apostar um Aurélio como todo habitat é natural.)
– Prefeitura Municipal. (No Brasil, só existe prefeitura nos municípios. Aliás, ainda bem!)
– Erário público. (Erário é o tesouro público. É erário, apenas, e basta.)
– General do Exército. (Só existem generais no Exército.)
– Brigadeiro da Aeronáutica. (Só existem brigadeiros na Aeronáutica.)
– Almirante da Marinha. (Só existem almirantes na Marinha.)
JÁ É ALGUMA COISA
Na manhã de ontem, o repórter perguntou a opinião de Luiz Inácio Lula da Silva sobre o novo acordo de 30 bilhões com o FMI:
– O Brasil precisava desse acordo. Mas só vou dar minha opinião após estudar detalhadamente os pontos da negociação.
A declaração do Lula é alvissareira: antigamente, a pergunta teria uma resposta clássica, que politicamente “faz parte”:
– Vou consultar as bases!
CENAS DE UM CASAMENTO
Dias das mães, em Curitiba, todo mundo sabe que não se comemora: se almoça em Santa Felicidade. Já nos dias dos pais, o programa é outro: torrar a grana do próprio, no shopping, sob o pretexto de comprar uma camisa nova pro velho.
Aí, no shopping, o piá assiste emocionado papai e mamãe de mãos dadas. Tantos anos de casados, uma cena rara.
– Papai, que espanto, nunca tinha visto o senhor assim tão carinhoso!
– É que se eu largo a mão da tua mãe, ela sai por aí comprando tudo!
Até domingo e, se você também já caiu numa dessas ciladas da língua, é isso aí: também “faz parte”.