Neste Dia de Finados se faz necessário guardar recato, recolher o riso e aparentar um certo siso, apesar do circo armado na borda do cemitério.
O que é trágico restou cômico, o drama virou comédia e há quem afirme que a história presente virá a ser piada de salão. Getúlio Vargas era um déspota simpático, risonho e esclarecido. Para se tornar popular, incentivava que se fizessem anedotas com o ?pai dos pobres? no rádio, no cinema e, principalmente, no teatro de revista. Era um humor conduzido, soprado ao ouvido de comediantes bem-comportados, desde que a caricatura não extrapolasse o riscado.
Quando o presidente Harry Truman esteve no Brasil, logo após a Segunda Guerra, Getúlio foi receber o vencedor no aeroporto, onde ganhou uma siderúrgica e o general Dutra, um caloroso abraço:
– How do you do, Dutra?
Na ponta do tapete vermelho, o simpático e roliço caudilho estendeu a mão e respondeu:
– How tru you tru, Truman?
Um chiste simpático, convenhamos. A piada saiu dos salões e entrou para a história, dentro dos cânones da propaganda oficial getulista. Luiz Inácio Lula da Silva, outro ?pai dos pobres?, não deve ter lido este capítulo da história de Vargas, como, de resto, não há de ter lido nenhum outro.
A tragédia do PT virou piada de salão, mas a caricatura ganhou vida própria e hoje vaga pelos salões da República, trazendo no peito a faixa presidencial. Do mostruário dos salões, dois chistes momentosos, sucesso em todos os salões, até nos de beleza:
– Não vejo o menor problema de o Lula viver bebendo, afinal, ele não está dirigindo nada mesmo…
– Sabia? Preocupadíssimo com a gripe aviária, o presidente Lula declarou que não viajará mais de avião!
Há piadas que vêm para o bem. Há piadas que vêm para o mal. Contrariando os moldes getulistas, a tragédia petista desandou para o escárnio, num espetáculo que não se sabe quando vai acabar: abrem-se as cortinas com um coro de 300 picaretas, um deles desafinado cantor de ópera; rinhas de galo; surge do breu um mineiro careca e sua secretária patética; a bordo de um coche importado, entra em cena um tesoureiro trapalhão; no cenário de alcova, deita uma cafetina da corte; um cangaceiro encerra o primeiro ato com um punhado de dólares na cueca, tendo ao seu lado um mágico tirando coelhos de um caixa 2, e uma explicação de fazer a rir a platéia: ?Recursos não contabilizados!?. Cenários, figurinos, episódios e personagens, todos dentro da mais perfeita carpintaria do teatro de comédia.
O segundo ato tem início com um arauto alertando ao distinto público para as cenas que vêm a seguir, lendo as ponderações do jornalista Clóvis Rossi, na Folha de S. Paulo: ?O mais elementar sentido comum e um tiquinho de informações básicas bastam para tornar completamente inverossímil a versão publicada pela revista Veja a respeito dos dólares de Cuba para a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva em 2002. Nem vou tratar da discrepância imensa entre os valores mencionados pelos denunciantes. Bastaria, em um país que fosse algo mais que república bananeira, para não levar a sério a denúncia?.
O alerta se faz tarde, o enredo e personagens do segundo ato são hilários, o público se contorce em risos: um ditador barbudo, três engradados de uísque e rum com milhões de dólares, cenas de aeroporto, charutos cubanos, mares do sul, odores tropicais, um defunto por testemunha e dois piratas contando histórias do Caribe.
Fechando as cortinas, dois coros de peladonas da Playboy encantam a platéia, porque no Brasil tudo termina em samba.
Coro à direita – É ou não é, piada de salão / que o chefe da quadrilha é o presidente da nação!
Coro à esquerda – É ou não é, piada de salão / ver o neto do ACM falando em corrupção?
Se o Brasil não é um país sério, muito menos sérias são as nossas tragédias. A verossimilhança da comédia brasileira não está no desenrolar do enredo. Está nos seus personagens, os mais perfeitos e verossímeis bufões.