A calçada petit-pavé / É para andar, ou para ver? / Ela é uma calçada diferente / Que dá orgulho na gente.
O problema é que esta calçada diferente / Pode causar mais de um acidente / Machucando muita gente!
Quem nunca caiu numa calçada petit-pavé? / Talvez ela não seja para andar / Somente para ver!
Esta calçada bela e bonita / Não é eterna e infinita / E pode causar uma dor aflita!
A calçada petit-pavé / É para andar ou para ver?
(Luciana do Rocio Mallon)
As calçadas de Curitiba causam polêmica desde 29 de março de 1693, quando o capitão Matheus Leme realizou a primeira eleição para a Câmara de Vereadores da Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais. Já naquela época o poder público empurrava com a barriga algumas de suas atribuições. Os moradores ficavam obrigados a limpar o Rio Belém para evitar o banhado em frente à igreja matriz, as casas deveriam ser cobertas com telhas – coisa chique! – e as ruas já iniciadas teriam de ser continuadas, para que a vila não viesse a ser um aglomerado de becos sem saída.
Com as calçadas, assim foi e assim é até hoje: atendendo aos requisitos da municipalidade, seja o que Deus quiser. Cada proprietário de terreno é o responsável por sua própria calçada e esta polêmica se arrasta desde aquela primeira eleição de 1693.
De um lado da rua, os anticalçadistas, aqueles que achavam que a vila não carecia de calçadas. Se gente já era escassa, vez por outra passava um ou outro carro de boi, ou a elegante caleça do senhor de terras. Calçadas só se faziam necessárias quando passavam os tropeiros no caminho do Viamão.
No outro lado rua, os calçadistas militantes. Uma minoria poderosa. O próprio Matheus Leme à frente, defensor em prosa e verso das maravilhas do petit-pavé. Uma pedra portuguesa, com certeza.
Ora, pois-pois! Abriram-se as urnas e os calçadistas venceram por um voto apenas. O suspeito resultado da primeira eleição, com farta distribuição de farinha e carne seca, acabou numa guerra de pedras – petit-pavé, é claro! O capitão Matheus Leme validou o pleito com murro na mesa; e assim a oposição ao petit-pavé até hoje faz parte da cultura política de Curitiba. Senão, vejamos a história recente: Jaime Lerner gosta de flanar no petit-pavé da Rua das Flores; Roberto Requião prefere botar o pé no barro da periferia.
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Se petit-pavé fosse colhido em árvore, diríamos que seria ele um pomo da discórdia. Recentemente uma liminar proibiu a aplicação do petit-pavé na reforma das calçadas da Rua Marechal Deodoro, provocando pedradas entre a Prefeitura e o Ministério Público. O MP argumenta que os mosaicos portugueses são deslizantes e que, portanto, pedestres são de uma raça em extinção.
Compartilhando da mesma calçada da Prefeitura, em termos, o arquiteto José La Pastina Filho, superintendente regional do Iphan, defende a utilidade da estética: ?O petit-pavé é permeabilizante, permite que a água escoe para o solo. É um dos símbolos de Curitiba. Temos desenhos das décadas de 30 e 40?.
De uma tradicional família de calceteiros, o engenheiro Emílio Garcia y Dias concorda com La Pastina: ?Quando nossa empresa calçou o Largo da Ordem, tivemos que refazer toda a obra. Queriam o piso sem frestas, e deu no que deu: na primeira chuva, sem permeabilização, aquilo virou uma cascata e a Galeria Júlio Moreira – atrás da Catedral – encheu até ao gargalo?.
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Se essas ruas fossem minhas, voltaria ao capitão Matheus Leme e convocaria uma eleição nesta Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais. Sendo que hoje uma boa calçada é legítima defesa do pedestre, o povo poderia escolher democraticamente o seu feitio:
1) Pedrinhas de brilhante; 2) Lajotas antiderrapantes; 3) Revestimentos cerâmicos de Campo Largo; 5) Cascas de bananas; 6) Blocos de concreto pré-moldado intertravados; 8) Petit-pavé. Façam suas apostas!