Nesta última semana, a cena brasileira nos apresentou novos e surpreendentes personagens. Pela ordem de entrada, e pela importância do palco, nenhum deles ganhou tanta atenção de público e crítica quanto o bandoleiro Marcola, líder do PCC. Ao governador Cláudio Lembo, brilhante coadjuvante, coube interpretar a melhor frase: ?Nós temos uma burguesia muito má, uma minoria branca muito perversa?.
No Paraná, o personagem da semana vem da pequena cidade de Campo Largo, na Região Metropolitana de Curitiba, num enredo que já acumula mais de cinco mil páginas na Polícia Federal.
Thadeu Cyz é o ator, Adelir Suzuki é a atriz, com 91.203 modestos brasileiros fazendo o papel de palhaços em meio a uma farsa cuja moral da história ensina que quando o milagre é muito, até o santo desconfia.
Cyz é um ex-vereador, com respeitáveis e bem cuidados cabelos brancos, aparência de um pastor evangélico na meia-idade. Sua bonita esposa Suzuki lembra uma gueixa já um tanto passada do ponto.
Na Câmara Municipal de Campo Largo, Thadeu Cyz tinha um banco comercial e recebia seus eleitores como um consultor financeiro que prometia juros de até 8% ao mês. Nesse ?milagre econômico?, aplicações de novos clientes bancavam os juros prometidos aos degustadores mais antigos da marmelada. Cyz era o guloso que raspava sua parte do tacho e não acumulava fundos necessários para quitar as dívidas, em torno de 200 milhões, diz-se. Na prática, Thadeu Cyz tinha um banco em Campo Largo. Uma respeitável instituição bancária há pelo menos 18 anos.
Em fevereiro, Campo Largo teve um grito de Carnaval doloroso: ?Cyz quebrou!? – o grito despertou a cidade para a tragédia que se anunciava e os incautos correram à boca do cofre vazio.
Durante a Quaresma, Cyz e Suzuki foram vistos pela última vez na cidade, antes de fugirem para Portugal. Oito pessoas foram internadas com fortes dores no peito, centenas ficaram sem fala: ?Sempre quando a gente queria tirar o dinheiro, ele aumentava os juros. Chegou a 8%?.
O Carnaval de Campo Largo foi uma tristeza. Em compensação, na Semana Santa a população foi à forra: entre boatos e quase suicídios, no sábado de Aleluia malharam dezenas de judas com a cara de Cyz e a mansão do falso profeta foi apedrejada. No domingo de Páscoa, a Igreja Matriz de Campo Largo ficou lotada à espera de um milagre, e que os filhos pródigos retornassem à casa.
Retornaram na madrugada desta quinta-feira. A temporada de dois meses em Portugal foi interrompida por uma inesperada falta de ?recursos não contabilizados?. O casal contava com uma razoável quantia em dinheiro, parte escondida em um apartamento e outra parte no interior de um carro, ?em má hora? localizada pela Polícia Federal.
Foram presos no Aeroporto de Guarulhos. Ele muito elegante, com um esportivo sapato de turista; ela trajando um alinhado casaco de couro. Só as algemas destoavam do figurino.
?Crime maior que assaltar um banco, só mesmo abrindo um banco?, diz a cartilha da esquerda revolucionária. No início da ditadura de 64, o ministro da Economia Roberto Campos sistematizou o mercado financeiro e criou o Banco Central. Até então, a ciranda financeira era risonha e franca. Agiotas e especuladores arrancavam poupanças das mãos de incautos com a promessa de juros nunca vistos. O Brasil era um Campo Largo.
Lembram os de boa memória que duas empresas de Curitiba se destacavam naquele outro ?milagre econômico?: Thá Scaramuzza e o Supermercado Bonn. Os ?correntistas? entregavam o dinheiro num mês, nos seguintes só passavam no caixa para retirar os incríveis juros prometidos.
Até que um grito saiu da Boca Maldita: ?Quebraram!?. Com instinto de manada, a população disparou em direção ao vazio. Bacanas foram ao suicídio, alguns fregueses também.
Em Campo Largo, nenhum dos personagens ainda morreu. Apenas sentem fortes dores no peito, e no bolso.