Postado no dia 20 de setembro de 2004, às 12h05, eis que aterrissa na redação um telegrama fonado: “Parabenizo o livro Botecário, espero muito sucesso. Claudete Gennaro”.

Foi um prazer, Claudete. Mais que um prazer, um “pequeno grande prazer”. Numa época quando quase tudo nos chega pela internet – quanta elegância! – é um daqueles raros prazeres, os pequenos grandes prazeres. O telegrama fonado de Claudete Gennaro fez lembrar uma infinidade de outros pequenos grandes prazeres. Primeiro da lista, o pequeno grande prazer de fazer listas. Lista de amigos, lista de convidados, lista de presentes, lista de viagem, lista de supermercado, lista de livros, lista de discos, lista de cidades inesquecíveis, lista de restaurantes e – a melhor das listas – a lista de pequenos grandes prazeres.

O pequeno grande prazer de saborear uma fruta no pé, um pé de goiabeira, a jabuticaba no pé que nasce no pé. Quando moleque, subir no pé, comer a fruta do pé e dar no pé. Comer verdura da horta.

Ver uma borboleta passando e tomar uma chuva de verão em cima de uma bicicleta. Um peixe na ponta da linha, um banho de rio. Depois do aguaceiro, o cheiro da terra. Sol e chuva, casamento de viúva, o pequeno grande prazer do arco-íris, a lenda do baú repleto de ouro que ele aponta escondido numa das pontas.

O cheiro do lençol limpo e da roupa bem passada, a gola engomada, o primeiro dia de aula, a primeira lancheira, o doce cheiro da merenda, a primeira linha com a melhor caligrafia no caderno novinho. Entrar na livraria, os materiais de desenho de uma papelaria. Uma caixa grande de lápis de cor. O lápis bem apontado, borracha virgem. O bolo de aniversário, o chocolate da páscoa, a véspera da noite de natal. O sino da igreja. A primeira bicicleta, a primeira chuteira, a primeira bola. O fim da tarefa.

Quando chega o inverno, vestir um casaco velho e achar um dinheiro graúdo no bolso interno. Guri, que pequeno grande prazer era comprar um novo gibi, ler escondido e trocar no cinema domingueiro. O Pasquim nas bancas de revistas e aquela canção do Roberto.

O primeiro contracheque, o primeiro dia das férias. Uma mala arrumada, o primeiro passaporte. Ver uma estrela cadente e ouvir o barulho do mar. Uma garapa na serra. Um veleiro lá longe no mar, a gaivota rondando, uma ilha deserta.

O primeiro chope na praia, o primeiro gole da temporada. O pequeno grande prazer de chegar. Tirar o sapato, o pequeno grande prazer da sandália. Deitar na rede macia, o cheiro de um livro novinho em folha, rasgar o lacre para ouvir aquele CD pela primeira vez. Da cozinha, sentir o cheiro de café sendo passado, o perfume do bolo saindo do forno. O pequeno grande prazer do vento soprando da janela.

O primeiro olhar, um beijo na testa, dormir abraçado com o barulho de chuva no telhado, acordar e lembrar que é feriado. Pequeno grande prazer é uma noite de domingo, dormir o sono dos justos com o time vitorioso, assistir programa esportivo com o time na ponta da tabela, o artilheiro dando entrevistas.

O cheiro de carro novo, engraxar o sapato no engraxate, fazer a barba no barbeiro, o café na padaria, o pãozinho ainda quentinho, o pastel da feira. O tempero da mamãe. A velha casa pintada de nova, o sabiá no telhado. Chegar em casa. Um chuveiro quentinho no inverno, uma chuveirada de verão.

Um copo de água gelada.

Até quarta-feira; com grande prazer.

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