A hilária cena do governador Roberto Requião provando mamona no gabinete do presidente ganhou destaque nas páginas, vídeo na internet e foi reprisada à exaustão na campanha eleitoral. Deve ser por isso que Requião foi reeleito. Diga lá, quem já não passou por uma pequena vergonha?

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Quem primeiro tratou do assunto foi o arquiteto carioca Marcos Vasconcelos. Começou contando algumas histórias no Pasquim, depois reunidas no livro 300 histórias do Brasil – Pequenas vergonhas.

É raro se ouvir de alguém a confissão: ?Eu me envergonhei de mim mesmo!?. Uma pequena vergonha é de dolorida confissão. A grande vergonha leva o culpado ao exílio voluntário da sociedade, e até ao suicídio. Menos aqui no Brasil, é claro. Delúbio Soares, sem nenhum pejo no rosto, vaticinou que o vergonhoso caso do ?mensalão? viria a ser piada de salão. Para Bernard Shaw, ?quando um idiota faz alguma coisa de que se envergonha, diz que está apenas cumprindo o seu dever?.

Pequenas vergonhas são desgraças inconfessas. Não têm hora marcada para acontecer. Muito menos local. Ocorrem nos melhores salões, na intimidade de quatro paredes – estas vão para o túmulo -, e até no trânsito.

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Regina, digamos um nome, é artista plástica aqui de Curitiba. Num úmido fim de tarde, nossa amiga foi ao supermercado fazer as compras da semana. Encheu o carrinho com as compras, pagou e se dirigiu ao estacionamento para acomodar os pacotes no automóvel. Não há de ser preciso repetir que artista é uma gente aloprada, no bom sentido! No mundo da lua, Regina esqueceu um pacote de açúcar no teto do carro e assim entrou na Rua Comendador Araújo, em pleno furor do trânsito no centro da capital.

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Foi um buzinaço no curto percurso de quadra e meia, antes de Regina se dar conta de que era ela o centro as atenções. Saiu do carro para ver o que sucedia – seria um pneu furado, uma porta aberta, um incêndio? -, e lá estava o impávido pacote de açúcar no teto do carro.

A artista apanhou o pacote e, ao retornar ao volante, a pequena vergonha: havia trancado a porta carro com a chave na ignição e o motor ligado. Para a vergonha não ser assim tão pequena, naquele momento chovia fino, o automóvel no meio da rua e a artista ali, plantada com um pacote de açúcar de cinco quilos no colo.

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Certa vez alguém lembrou ao comediante Groucho Marx que ele deu vexame bebendo champagne no sapato de Sophia Loren. ?Não verdade!? – respondeu Groucho – ?Derramei quase metade, porque ela se recusava a tirar o maldito pé do sapato?.

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O escritor Wilson Bueno bem sabe o que é uma pequena vergonha. Estava o nosso bardo tricotando literatura em Parati, com o também escritor Marcelo Mirosola, quando os dois concordaram que já não se fazem mais cronistas como antigamente: ?Onde os textos amorosos de Rubem Braga, de Paulo Mendes Campos? Os cronistas transformaram o gênero numa coisa técnica e chata, estatística, utilitária?. (…) ?E o que temos hoje? Contardo Calligaris, Nelson Ascher, Jabor… Pobreza total? – gritava Mirisola. E eu ajuntava: ?Sim, pobreza total. Sobretudo o Calligaris…?.

A pequena vergonha de Wilson Bueno ficou registrada em crônica: ?Severo compromisso com a vadiagem, deixamos presto o Café Pingado. E aí, com a cara mais cínica do mundo, já na rua, Marcelo Mirisola revela: ?Sabe quem estava bem atrás de você, no café?? ?Não, nem imagino… O Saramago?´ ?Não, cara. Atrás de você estava o Contardo Calligaris. De frente pra mim?.

?Precisa dizer mais?? – Não precisa, Bueno: foi apenas uma pequena vergonha.

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Vergonha é um sentimento muito relativo. Pequena vergonha é engolir mamona em frente ao presidente. Vergonhoso é engolir que a corrupção campeia no Brasil desde 1500, não existe pecado do lado de baixo do Equador, e vamos trocar de assunto.