Patrimônio afetivo

Nove em cada dez brasileiros são técnicos de futebol, como estamos vendo. Em Curitiba, a mesma proporção se aplica ao número de urbanistas que se revelam quando se trata de discutir o nosso modelo de planejamento urbano.

Duas recentes propostas estão mexendo com os ânimos de nossos milhares de arquitetos-urbanistas: a reabertura da Rua das Flores para o trânsito de automóveis e a divisão da centenária Praça do Batel em duas partes para a abertura de mais uma rua para desafogar o mesmo trânsito de veículos. Ou seja, o planejamento urbano de Curitiba tornou-se um estorvo para o automóvel e os "liberais do trânsito" argumentam que "uma nova proposta de vanguarda precisa ser adotada".

Pois sim, a vanguarda do atraso.

Na segunda-feira passada foi realizada uma reunião pública para discutir a revitalização da Rua das Flores, partindo da premissa que a via está na UTI e que só os fluidos da gasolina podem reerguer a "moribunda", por onde circulam 140.000 pedestres ao dia.

A tese dos "automobilistas" não podia ser mais comovente. Poderíamos chamá-la de "A lógica da bengala".

Este argumento parte de uma pesquisa que aponta ser o centro da cidade uma região povoada pela terceira idade, na sua grande maioria. Velhinhos, é lógico, que já não possuem condições físicas para percorrer algumas quadras a pé, em busca de uma bengala nova no comércio da Rua das Flores. Com suas antigas bengalas, preferem a comodidade das escadas rolantes de um shopping.

Com a Rua das Flores liberada para o automóvel, seria cômodo e lógico: o filho apanharia o pai na porta do elevador da garagem do prédio e o transportaria de automóvel até a porta de uma loja. Porta a porta. Feita a compra de uma bengala nova, minutos depois o filho retornaria com o veículo à loja e levaria o idoso de volta à casa.

"A lógica da bengala". Não é comovente? Pois essa foi a tese que causou mais forte impressão entre os participantes da reunião pública.

Antes de falecer, Bento Munhoz da Rocha Netto comprou para dona Flora um apartamento na Praça Osório, de frente para a Rua das Flores. O ex-governador chamava o imóvel de "apartamento da viúva". Dona Flora não esteve presente à reunião, mas presume-se que a jovem nonagenária se sentiria bem ofendida com tal lógica.

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O esfacelamento da Pracinha do Batel tem o mesmo propósito, é lógico: tradicional ponto de encontro do bairro, o simpático logradouro abriga uma concorrida banca de jornais, duas floriculturas e algumas valentes árvores. Na "lógica da bengala", em vez de perdermos preciosos minutos de vida fazendo o contorno da pracinha, seria bem mais cômodo passar com o automóvel por cima da praça, da banca de revista, das floriculturas e das árvores que só servem para atravancar o trânsito.

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A vanguarda do atraso tem lá suas razões, é lógico: a Catedral Metropolitana há muito vem atrapalhando o trânsito da Praça Tiradentes. É lógico, passa-se por cima. E o que dizer do Passeio Público -, local em desuso até para dar pipocas aos macacos, por falta de macacos – área que poderia abrigar uma torre para estacionamento de automóveis.

Primeiro a Praça do Batel, depois a Praça Osório, outra que cabe rasgar em duas para ligar o futuro trânsito da Rua das Flores com a Rua Comendador Araújo, em direção ao Batel.

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Tudo tem a sua lógica e, se não tiver, passa-se por cima da lógica – esse é o raciocínio daqueles que vêem uma rua, ou uma praça, apenas como uma referência própria de negócios.

"No pasaran!". A vanguarda do atraso não vai passar por cima dos que ainda enxergam na Rua das Flores ou na Pracinha do Batel muito mais do que um patrimônio público. São referências históricas, ícones urbanos, o nosso patrimônio afetivo.

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