Curitiba virou uma esquina do mundo e o que não está faltando nesta conferência mundial da ONU (COP-MOP) são tradutores. Há controvérsias, mas consta que há três tradutores por metro quadrado no ExpoTrade. E, mesmo assim, não estão dando conta do recado.

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Já na cerimônia de abertura, a biosfera foi seriamente afetada quando o governador Roberto Requião queimou a massa cinzenta de um tradutor russo com a palavra "pantagruélico". Depois foi a vez de traduzir a expressão preferida da ministra Marina Silva: "De sorte que".

Coitados dos tradutores, agora está para chegar o presidente Lula. É de apostar um mico-leão-dourado como nenhum deles vai conseguir traduzir esta pérola do presidente, quando discursou na Cúpula das Américas: "Estou otimista porque estamos reduzindo as taxas de interesses dentro do Brasil". É mole? "Tasa de interés" significa, em espanhol, taxa de juros. "Taxas de interesses" não significa nada em língua alguma.

Tradutor sofre. Como traduzir para um delegado africano, por exemplo, que uma folha de alface, três azeitonas e uma fatia de presunto estão custando no local da conferência a pequena fortuna de 15 reais? Precisa explicar que o presunto é italiano, a azeitona é grega e alface é uma espécie vegetal em extinção no Brasil.

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Muito gentil tem sido o tradutor da delegação francesa. Os parisienses pediram a indicação de um bom restaurante francês. O tradutor anotou num papel dois tradicionais endereços: os restaurantes "Île de France", na Praça 19 de Dezembro, e "Boulevard", na Rua Voluntários da Pátria. Dois dias depois, os franceses comeram e não gostaram do menu da família Jean Paul Decock e do chef Celso Freire, respectivamente.

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O tradutor, curitibano que conhece as delícias da cidade, não se sentiu ofendido:

– Sendo assim, tenho a sugerir o "Montesquieu", na Avenue Silva Jardim com o Boulevard Westphalen.

Os franceses não sabiam, ficaram sabendo. O "Montesquieu" é a pastelaria de um japonês, bem ao lado do Cefet, cuja especialidade da casa é um sanduíche chamado X-Montanha. Nome bem apropriado: vem com um ou dois hambúrgueres, recheado de tudo e mais um pouco, e um pastel no meio! Generoso, o freguês ainda pode escolher o sabor do pastel empanado.

Os franceses gostaram do "Montesquieu". Tanto que o japonês até já contratou um intérprete para atender a nova freguesia.

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O fotógrafo Orlando Kissner, o Polaco, estava fazendo a cobertura de rotina quando se deparou com um sueco de dois metros de altura se lamentando em altos brados. Em "suequês", evidentemente. Preocupado, Kissner perguntou para um tradutor o motivo de tanta lamúria: "Ele está explicando para os amigos da Suécia que está aqui há cinco dias e ainda não namorou ninguém. Por enquanto, o jogo está zero a zero".

Um pouco mais adiante, um canadense perguntava ao tradutor:

– Who is Molly?

– Molly? Quem é essa tal de Molly, que todo mundo quer conhecer? – saiu pesquisando o tradutor.

Mais um vez, Polaco entrou em cena:

– Molly é uma senhora muito famosa no bairro São Braz, onde tem uma bela chácara de muitos cômodos.

– O tradutor, que é paulista, insistiu:

– E por que ela é assim tão famosa?

Polaco ficou numa saia justa, mas não perdeu o rebolado:

– Ela é especialista em organismos vivos modificados.

É puxado o regime de debates na 3.ª Reunião das Partes do Protocolo de Cartagena sobre Biossegurança (MOP3). As reuniões começam com o galo cantando em francês e terminam depois da "siesta" da delegação do México. Quando chega a noite, é notória a falta de tradutores na zona boêmia de Curitiba. Na Rua Cruz Machado e adjacências, o único tradutor que atua na região é um catedrático em "portunhol".

– Atención, atención, mira que lindo: bailarinas muy guapas! Los chicos portadores de crachás de la ONU solo págan meia! Promociones especiales, ingressios en las casas noturnas por solamente vinte realitos!

Como se sabe, ali na Cruz Machado nunca se cobrou ingresso de ninguém. O tradutor de portunhol tem se dado bem.