Deus é mesmo brasileiro. Ou, se não é, tem parente no Brasil meridional, considerando tantos descendentes de famílias italianas, polacas e tedescas, de comprovada parentagem com os últimos papas do século passado e presente. Sem contar amigos, colegas de estudo e batina dos mais recentes usuários do trono de São Pedro.

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O padre Lourenço Biernaski é um deles. Conheceu Karol Wojtyla em Cracóvia, ainda jovem, e veio a se encontrar com João Paulo II no Vaticano, num informal almoço entre amigos, onde provaram da comidinha caseira das freiras oriundas da Polônia. Padre Lourenço é fiel guardião da memória polonesa no Brasil na sede dos Vicentinos, junto à Igreja São Vicente de Paulo. E também preserva a imagem de Wojtyla. Numa foto pendurada na parede, padre Lourenço mostra o momento exato do atentado ao papa: no dia 13 de maio de 1981, pouco depois das 17h locais, João Paulo II estava com os fiéis na Praça de São Pedro, quando foi atingido por duas balas disparadas com uma pistola nove milímetros pelo terrorista turco Mehmet Ali Agca, de 23 anos.

É impressionante: a multidão, o braço apontado, a mão de Ali Agca apontando a arma, e o papa a poucos metros. O mais impressionante: atrás do terrorista, ombro a ombro, dois padres vicentinos aqui de Curitiba, amigos de padre Lourenço, testemunhas oculares da história.

O tiro dispara e seguem-se alguns segundos de perplexidade, com Ali Agca fugindo em direção às colunatas da Praça de São Pedro. Em meio ao tumulto, os dois padres vicentinos saíram no encalço do terrorista. Não o alcançaram. A segurança do Vaticano chegou antes, mas a foto comprova que faltou pouco para os padres entrarem para a história como os dois brasileiros que prenderam o assassino do papa, porque foi um milagre o papa não ter sido morto naquele momento.

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Se Deus não é brasileiro, pelo menos alguém de seu rebanho sempre está na proximidade do representante Dele. Foi o que aconteceu nessa quarta-feira, quando o papa Bento XVI quebrou o protocolo, ao se aproximar da multidão para apertar mãos e abençoar fiéis, pouco antes de celebrar sua segunda audiência geral na Praça de São Pedro. O papa alemão, conhecido por sua timidez, desceu do ?papamóvel? perto do altar e, rompendo protocolo, caminhou em direção das pessoas para tocá-las e abençoar os fiéis em sua volta.

Momentos depois, ligam de Roma:

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– Acabei de ser abraçado pelo papa!

– Foi na capela onde o papa concede audiências aos turistas?

– Você não vai acreditar. Foi na Praça de São Pedro, no meio da multidão.

– Impossível!

– Ele estava a uns 50 metros de onde eu estava, quando ele fez um gesto ao motorista e mandou parar o ?papamóvel?. Ainda em cima do veículo, Bento olhou em minha direção e não desviou o olhar. Desceu do carro, parou para acenar ao povo e começou a andar, sempre em minha direção. E foi se aproximando. De vez em quando parava para abençoar algum enfermo em cadeira de roda.

– E você?

– Eu ali, de olho firme no papa… e o papa de olho firme em minha direção.

– E o papa foi se aproximando!

– E o papa foi se aproximando… se aproximando… quando estava a poucos metros, ergueu os braços, afastou algumas freiras que estavam forçando se aproximar e parou na minha frente. Ao alcance dos braços, Bento baixou as mãos e segurou meus ombros, firme!

– E você?

– Eu ali, cara a cara com o papa. Nariz quase encostando o nariz, quando ele puxa minha cabeça e me fala ao ouvido: ?Filho, você conhece o Rafael Greca??

– E o que você respondeu?

– Conheço, Sua Santidade! – então ele me disse em bom português: ?Filho, avisa ao Rafael Greca para começar a preparar a festa de minha ida ao Brasil. Diz também ao Rafael que pretendo oficiar uma santa missa no Bosque do Alemão, mas que ele escolha com cuidado o artista que vai fazer a minha estátua no bosque. Porque João Paulo II nunca esqueceu de sua própria estátua do Bosque do Papa. Meu amigo Karol tinha pesadelos com a estátua do ?Incrível Hulk?.

– Inacreditável…

– Nos abraçamos, ele me abençoou e se despediu: ?Uma bênção ao Paraná, benção a Curitiba e leva este rosário para Margarita?.